ARTIGO DE OPINIÃO: Quando a inteligência artificial começa a diagnosticar-nos… e em Viseu?

03/10/2026 19:30

Nunca foi tão fácil encontrar respostas para aquilo que sentimos. Basta escrever numa ferramenta de inteligência artificial “tenho dificuldade em dormir e sinto-me cansado” e, em segundos, surgem possíveis explicações. A inteligência artificial veio facilitar o acesso à informação. Mas, quando falamos de saúde mental, estaremos preparados para distinguir informação de diagnóstico?

A utilização da inteligência artificial para esclarecer dúvidas relacionadas com saúde tem crescido significativamente. Para algumas pessoas, é o primeiro espaço onde conseguem falar sobre aquilo que sentem, sem vergonha ou medo de julgamento. E isso não é necessariamente negativo.

A inteligência artificial pode ajudar a explicar conceitos psicológicos, organizar informação ou sugerir que determinados sintomas merecem atenção. O problema surge quando a informação deixa de servir para compreender aquilo que sentimos e passa a ser utilizada para nos diagnosticarmos.

Na minha prática clínica em Viseu e Tondela, esta realidade é cada vez mais frequente. Há pessoas que chegam à consulta já convencidas de que têm ansiedade, depressão, PHDA, autismo ou determinadas perturbações da personalidade porque encontraram uma descrição na Internet ou conversaram com uma ferramenta de inteligência artificial.

“João”, 34 anos (nome fictício), começou a sentir dificuldade em concentrar-se e cansaço. Após várias conversas com uma IA, chegou à consulta convencido de que tinha PHDA, passando a interpretar cada esquecimento como uma “prova”.

Contudo, os mesmos sintomas podem ter origens muito distintas, como ansiedade, stress ou falta de sono. Um diagnóstico psicológico não resulta de uma simples lista de verificação. Uma avaliação clínica exige compreender a história, o contexto, a intensidade dos sintomas e o impacto real na vida da pessoa.

Existe ainda o risco de o autodiagnóstico aumentar a ansiedade. Ao procurar sintomas constantemente, a auto-observação torna-se excessiva e pequenas experiências do quotidiano passam a parecer sinais de doença. Por outro lado, uma resposta falsamente tranquilizadora pode adiar a procura de ajuda especializada.

Em regiões como Viseu, onde o acesso a cuidados de saúde mental pode ser mais demorado, a rapidez das respostas digitais torna-se apelativa. Contudo, a informação online deve ser uma ponte para os cuidados de saúde, e nunca um substituto.

A inteligência artificial não é o problema, mas a intervenção clínica exige algo que nenhuma ferramenta automática reproduz: compreender a pessoa na sua totalidade. A saúde mental não é identificar rótulos, é compreender vidas.

E você, quando procura respostas online, usa a inteligência artificial para se informar… ou para se diagnosticar?

David Almeida

Psicólogo Clínico e da Saúde em Tondela e Viseu

www.davidalmeida.pt

965800042


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