Não me dou muito bem com o calor. O mês de agosto é, muitas vezes, sinónimo de verão em casa. Descanso. Sem rotinas, sem horas marcadas. Silêncio, entrecortado por muita música, sono prolongado, sesta no sofá da sala, com as janelas obscurecidas…
Livros. Muitos que ficaram na lista de espera de um ano cansativo, preenchido com compromissos e projetos.
Roupa de andar por casa, normalmente vestidos largos ou calções. Pouca luz durante o dia, depois das janelas abertas, manhã cedo, para arejar o quarto e a sala.
O pequeno-almoço na varanda, depois da rega do jardim. Sim, um jardim citadino.
Jantar ao pôr do sol. Serões de estrelas, de leituras, de filmes, de encontros comigo, raramente com alguns amigos.
Poucas vezes ligo o computador. Quando o faço, aproveito para guardar, em pastas, as fotografias da última viagem ou dos acontecimentos relevantes do meu ano. Começo por organizá-las metodicamente, mas depressa me canso. Digo, cá para mim, que o farei melhor quando me aposentar, prevendo, com alguma ironia, que depois terei tempo para tudo.
Este ano criei a do Egito. Regressei a Alexandria, ao hotel Cecil, numa das zonas mais movimentadas da cidade, a avenida marginal, Corniche, junto ao Mediterrâneo. É domingo. Contudo, a cidade fervilha. Trânsito caótico, impossível atravessar as ruas a pé, com medo de ser atropelada. Milhares de pessoas na rua. Uns passeiam aos magotes, outros sentam-se em pequenos grupos no muro que nos separa do mar.
Fui à Biblioteca na segunda-feira. Este era o grande objetivo da minha visita àquela cidade, construída sobre os despojos das várias civilizações que por ali passaram.
Espera-me no átrio exterior a estátua de um dos Ptolomeus. No interior, a de Demétrio de Falero, o primeiro bibliotecário.
O guia vai orientando a visita a alguns dos museus. Depois, ficámos sozinhos a percorrer os grandes espaços da Biblioteca central, em escada, com onze pisos dedicados a diferentes áreas do conhecimento. Paro, absorvo a luz que irradia naquele lugar. A luz no sentido literal e no sentido metafórico. Sento-me. Observo a maravilha da arquitetura moderna. Única!
Imagino a azáfama de outros tempos em que este era o maior e mais prestigiado lugar de recolha de milhares de pergaminhos, de papiros, de manuscritos. Num tempo em que os detentores do poder competiam para ver quem tinha os mais raros! Imagino Hipátia, num dos corredores, a partilhar o seu conhecimento, a sua erudição e a suscitar tantas invejas, entre os pares.
Revivo um passado que não foi meu, mas me pertence.
Tranquila, vou percorrendo este mês, a antecâmara de um novo ano letivo, já em setembro, daqui a tão poucos dias!
















