Diz o padre Bartolomeu Lourenço a Baltasar Sete-Sóis que «voar é uma coisa simples comparando com Blimunda». A importância destas palavras não está só no contributo que dão para a caracterização da personagem feminina – figura maior de Memorial do Convento – mas, sobretudo, no reconhecimento inequívoco que traduzem da sua singularidade. Não só dizem da condição excecional de Blimunda – a de ver por dentro das pessoas – como dizem da condição não menos comum de Bartolomeu – a de tornar visível essa excecionalidade. Na verdade, se o ver por dentro das pessoas é uma faculdade que Blimunda não escolheu, Bartolomeu escolhe vê-la – e dá-la a ver a outro homem – na sua individualidade e raridade. A força de Blimunda não reside só no que ela é, reside também no olhar daqueles que a reconhecem como é e lhe permitem ser quem é. Podendo ser igual a si mesma, pode assumir a sua diferença e, nessa medida, contribuir para um sonho comum, que se alimenta das vontades de homens e de mulheres. Por que razão que se conheça conseguiu Blimunda recolhê-las e não conseguimos nós reuni-las? Sim, «voar é uma coisa simples» comparando com o que devia ser e não é.
















