A segunda edição da medida “Cheque Cuida-te Psicologia”, lançada pelo atual Governo, representa um sinal positivo de que a saúde mental começa finalmente a ocupar o lugar que merece nas políticas públicas. Destinada a jovens entre os 12 e os 35 anos, esta iniciativa facilita o acesso ao acompanhamento psicológico numa fase da vida em que muitos problemas emocionais têm início. Mas, se o princípio da medida é tão importante, fará sentido limitar o seu alcance apenas a uma parte da população?
No meu artigo publicado em abril, defendia precisamente que uma resposta deste género poderia constituir um passo importante para aproximar os cidadãos dos cuidados de saúde mental. Na altura, sugeria a criação de um “cheque-psicólogo” que permitisse complementar a resposta existente. Hoje, é positivo verificar que esta ideia começa a ganhar forma, ainda que dirigida a um grupo específico da população.
Na prática clínica, sabemos que o sofrimento psicológico não escolhe idades. A ansiedade, a depressão, o burnout, o luto ou as dificuldades familiares podem surgir aos 16, aos 40 ou aos 75 anos. “Carlos”, 47 anos (nome fictício), procurou acompanhamento psicológico depois de vários meses a viver com ansiedade intensa e dificuldades no trabalho. Reconhecia que precisava de ajuda há muito tempo, mas foi adiando essa decisão por razões económicas. Quando chegou à consulta, o sofrimento já condicionava a sua vida pessoal, familiar e profissional.
É precisamente aqui que iniciativas como o “Cheque Cuida-te Psicologia” podem fazer a diferença. Mas talvez tenha chegado o momento de pensar numa evolução da medida. Se a saúde mental faz parte da saúde, por que motivo o acesso facilitado ao acompanhamento psicológico deverá depender da idade? Um modelo mais abrangente permitiria que qualquer cidadão pudesse recorrer a apoio psicológico quando existisse necessidade clínica, independentemente da fase da vida em que se encontra.
Além disso, esta solução valorizaria uma rede de psicólogos já existente em todo o país, permitindo complementar a resposta do Serviço Nacional de Saúde. Em vez de concentrar todos os recursos num único sistema, seria possível aproveitar a experiência dos profissionais que exercem no setor privado, dando aos cidadãos maior liberdade de escolha e aumentando a capacidade de resposta disponível.
Investir na Psicologia é investir na prevenção. Quanto mais cedo se intervém, maiores são as probabilidades de evitar o agravamento do sofrimento, reduzir o recurso prolongado à medicação, as baixas laborais e os custos humanos e económicos associados aos problemas de saúde mental.
A segunda edição do “Cheque Cuida-te Psicologia” merece, por isso, ser reconhecida como um passo na direção certa. Talvez agora seja tempo de dar o passo seguinte. Porque, se acreditamos que a saúde mental faz parte da saúde, fará sentido que o acesso ao apoio psicológico continue a depender da idade… ou estará na altura de garantir que qualquer pessoa possa receber a ajuda de que necessita, no momento em que dela precisa?
David Almeida
Psicólogo Clínico e da Saúde em Tondela e Viseu
965800042















