Há títulos que envelhecem mal. E depois há outros que, com o passar do tempo, deixam de ser metáforas para se tornarem descrições quase administrativas da realidade. O Triunfo dos Porcos pertence claramente à segunda categoria, ainda que Animal Farm insista, com alguma teimosia, em apresentar-se como ficção.
Convém esclarecer: não se trata aqui de uma súbita vocação pecuária desta coluna. Trata-se, antes, de reconhecer que a cultura (essa entidade tantas vezes invocada em tom cerimonial) continua a ser um
dos poucos lugares onde ainda é possível observar o mundo sem o verniz tranquilizador da normalidade. E, infelizmente, o que se vê não é particularmente tranquilizador. O campo artístico sempre teve uma
relação íntima com a distorção: exagerar, caricaturar, inverter, expor. Foi assim com a literatura, com o teatro, com as artes visuais. O grotesco nunca foi um acidente; foi uma ferramenta. Mas há momentos em que a realidade decide dispensar intermediários e passa a produzir, por conta própria, versões cada vez mais refinadas do absurdo. George Orwell percebeu isso cedo. A sua alegoria sobre o poder, a manipulação e a confortável elasticidade da verdade não era apenas um comentário político; era, no fundo, um aviso estético. Quando a linguagem se degrada, quando os símbolos são capturados,
quando as narrativas se tornam instrumentos de conveniência, não é apenas a política que se transforma — é a própria perceção do real. E é aqui que a cultura entra, ou deveria entrar. Porque, paradoxalmente,
quanto mais o mundo se torna ruidoso, mais se espera da arte um silêncio educado. Que observe, mas não incomode. Que critique, mas com moderação. Que exista, de preferência, sem perturbar demasiado
a ordem dos acontecimentos, mesmo quando essa ordem já perdeu qualquer relação com a lógica. O triunfo dos porcos não acontece de um dia para o outro. É um processo lento, quase elegante. Começa
com pequenas concessões, com ligeiras adaptações do discurso, com a normalização do que antes parecia, no mínimo, questionável. E, quando damos por isso, já não se trata de distinguir entre o que é
verdade e o que é conveniente, mas apenas de escolher qual das versões é mais confortável.
No meio disto, a cultura corre um risco curioso: o de se tornar decorativa. Um adereço respeitável, útil para preencher agendas e discursos, mas progressivamente afastado da sua função mais
incómoda, a de confrontar, desestabilizar, obrigar a pensar. Talvez seja por isso que certas obras continuam a incomodar décadas depois de terem sido escritas. Não porque sejam proféticas, mas porque são estruturalmente honestas. E a honestidade, como se sabe, tem pouca vocação para agradar. O Triunfo dos Porcos a que assistimos diariamente em direto na TV não é, afinal, uma novidade. É apenas uma reedição. Com melhor produção, mais meios e uma audiência consideravelmente mais distraída. Resta saber se a cultura quer continuar a assistir, ou se ainda está disposta a subir ao palco.















