ARTIGO DE OPINIÃO: Ridendo castigat mores

20/02/2026 18:18

No dia em que completo 57 anos, nada como reavivar memórias, para pensarmos, com humor e espírito crítico, sobre a evolução dos tempos. Assim, trago-vos hoje parte de uma das crónicas que integram As minhas (con)ficções, intitulada Os primeiros influenciadores, livro que também está hoje de parabéns pelo seu 1.º aniversário:

«No meu tempo de escola, já havia influenciadores profissionais. Chamavam-se pais. Claro que não havia internet nem plataformas ou canais digitais, mas havia outros processos e habilidades que garantiam a fidelização do público-alvo, como o respeito pela hierarquia e pela formação contínua em cultura de risco, que nos ensinavam, desde tenra idade, a não pisar. Alguns pais usavam inclusive técnicas de hipnose, quando diziam «Olha bem para mim!», ou de auto-hipnose, quando diziam «Olha bem para ti!», e ainda nos incutiam o gosto pelo ilusionismo quando diziam «Desaparece-me da frente!» Velhos tempos, em que a comunicação funcionava sem cortes, a não ser na mesada. Na escola, havia um ou outro candidato a influenciador, lembro-me de alguém me ter oferecido uma vez um cigarro, mas logo pensei que, se fosse boa coisa, não oferecia, ficava com ela, que é assim que eu faço com as coisas de que gosto, e lá tive de recusar a oferta, e confesso que tive pena porque a sua carreira de influenciador não estava a começar da melhor maneira, mas talvez eu o tenha influenciado a optar por outro caminho, nunca o saberei.»

É verdade, há coisas que nunca saberemos, mas outras há que não devemos esquecer, passe o tempo que passar, e pensar pela nossa própria cabeça é uma delas. E não nos deixarmos cair no engodo e livrarmo-nos, no mundo do scroll, das influências do algoritmo e das notícias fabricadas. Ámen.


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