Viseu orgulha-se, e bem, da sua qualidade de vida, da sua história e da vitalidade cultural que proclama em discursos e folhetos institucionais. No entanto, há ausências que se tornam ensurdecedoras precisamente porque ninguém gosta de as nomear. Uma delas é simples de enunciar e difícil de justificar: Viseu continua sem dispor de uma sala de teatro devidamente equipada para acolher 500 a 600 espectadores. O Teatro Viriato, peça central da oferta cultural da cidade, cumpre um papel relevante na criação contemporânea e na circulação de propostas artísticas. Mas não cumpre julgo eu (nem nunca pretendeu cumprir) a função de grande sala de teatro. A sua lotação é limitada, a estrutura cénica e técnica não responde às exigências de produções de média dimensão e a sua programação, frequentemente orientada por uma lógica de nicho e por uma certa auto-referencialidade estética, acaba por afastar uma parte significativa do público potencial. O problema não reside na existência de propostas exigentes; reside na ausência de alternativas que permitam diversidade e escala. O Teatro Mirita Casimiro, por seu lado, desempenha uma função importante enquanto auditório cultural e espaço de proximidade. É um equipamento útil, com história e relevância local, mas de dimensão e capacidade reduzida e com limitações técnicas evidentes. Não foi concebido para receber grandes produções teatrais, ópera ou musicais, nem para responder às necessidades cénicas e acústicas de espetáculos de maior envergadura. Complementa a oferta existente, mas não resolve a carência estrutural da cidade. Resta, muitas vezes, o Pavilhão Multiusos, apresentado como solução de recurso. E é precisamente isso: um recurso. Não foi pensado para teatro, não dispõe de acústica adequada, de boca de cena, de maquinaria cénica ou de conforto visual e sonoro compatíveis com a exigência artística e com o respeito devido ao público. Serve para muito, mas não serve para aquilo que repetidamente se tenta que sirva.
O resultado é uma cidade de média dimensão, com população suficiente, escolas artísticas, associações culturais ativas e público interessado, que continua impedida de receber ópera, teatro clássico, grandes produções nacionais, musicais ou companhias internacionais de média escala. Espetáculos que passam por cidades comparáveis ficam, sistematicamente, de fora do mapa.
A questão não é de gosto, nem de gosto “popular” versus gosto “erudito”. É, antes de tudo, uma questão de infraestrutura. Uma cidade que ambiciona relevância cultural não pode depender de espaços inadequados nem de uma única sala condicionada por opções programáticas que, sendo legítimas, não podem ser exclusivas. Viseu precisa de uma sala de teatro a sério: com 500 a 600 lugares, boa acústica, palco com dimensões e equipamento adequados, condições técnicas dignas e uma clara vocação de serviço público. Não para substituir o que existe, mas para completar. Não para baixar a fasquia cultural, mas para alargar o horizonte.
Porque a cultura não se faz apenas de intenções ou de discursos bem-intencionados. Faz-se também de paredes, palco, luz, som e de espaço para todos entrarem.
António Leal
Encenador / Diretor Artístico / Músico















