Castro Daire: “Sussurros de Sombra” é a próxima proposta de Serões na Serra

21/10/2025 17:37

O Espaço Montemuro – Serões na Serra é palco, no próximo domingo, 25 de outubro, às 21h00, da peça “Sussurros de Sombra”. A partir da obra de José Craveirinha e com direcção artística do Teatro Art´Imagem José Leitão, o espetáculo conta com a interpretação de Flávio Hamilton, Jacinta Freitas e Pedro Carvalho.

«Palavroso quanto baste para ferir sem sangrar». A síntese é da encenadora Daniela Pêgo, que refere ainda que «Este é um espectáculo onde impera um eterno combate, não um combate qualquer, um combate poético, interno, pelas palavras de Craveirinha que ressoam nos corpos em abraços, “não se pode subestimar o poder da fraternidade”. Todo este palco é confidência, muito própria, o homem, o poeta e o actor, nostálgicos, revivendo a definitiva matéria desta África. As palavras são doces flores que se entregam a cada instante num espaço escuro que numa lumiosa viagem semeiam a eloquente procura de uma Evocação aos Deuses… lágrimas? Um sussurro permanente de uma dor, uma saudade, uma luta que não cessa, que se impõe a nós numa constante vibração das vozes e corpos de três actores que se entregam sem resignação transpondo as fronteiras da garganta, das espectativas, de si próprios. Neste processo fomos pássaros incorruptos, criámos o nosso próprio ritual e cada manhã nova é ainda uma descoberta constante nesta nossa “Karinagana ua Karingana”, este “Era Uma Vez” que desejamos que cada um a sinta à sua própria maneira de viver. O teatro dentro do teatro, o teatro que é vida, mas que não deixa nunca de ser o jogo, um espectáculo que não pretende ser mais do que aquilo que é. Craveirinha queria ser Tambor… e nós também.»

«Colar de missangas no pescoço, o tempo todo». As palavras são do dramaturgista Fávio Hamilton, que acrescenta: «Os clássicos são para se comer e regurgitar depois. A obra do José Craveirinha, estanto inserida nessa categoria, precisa ser mastigada com responsabilidade e à margem de qualquer pudor, que a mais não serve senão para relegar tudo o que se diz canónico à condição de intocável. É imperativo dessacralizar o sagrado e libertá-lo do entorpecimento do pó, tomar de assalto a colónia de ácaros que por tendência se apodera dos seus escaparates. O sagrado, se for divino, é, por consequência, humano. Se for humano, então a todos pertence por igual, independentemente da geografia procedente. Craveirinha é, portanto, para se comer e não para se imortalizar na rigidez da pedra monumental, sujeito à erosão elementar. Um poeta não tem epitáfio. O epitáfio é o próprio poema, a carne mítica da obra. O texto Sussurros de Sombra não se insere na lógica de um teatro documental, nem sequer biográfico, na aceção mais imediata da forma. É uma peregrinação livre e enxuta pelo verbo do poeta que, a partir do seu contexto, esculpiu a metáfora-mundo. Dramaturgicamente, a procura foi no sentido de habitar esse claro-escuro da obra, de modo a que se projetasse em palco a sombra idílica do poeta, a sua emanação vocal, aquilo que ressoa através do corpo dos intérpretes. Maria, sua graça de vida, foi o fio que entreteceu o colar de missangas, que conta os ecos da prisão e a luta incessante pela autodeterminação do seu povo. Moçambique, a luta continua! 

O espetáculo é destinado a maiores de 14 anos, e tem a duração de 60 minutos. O bilhete normal tem um custo de 3€, sendo que, para sócios ACDR Fôjo, residentes na aldeia de Campo Benfeitor, jovens entre 13 e os 17 anos, e idosos, famílias e pessoas com necessidades especificas, custa 2€. Entrada é gratuita para menores de 12 anos. 

Os bilhetes estão disponíveis para reserva no site do Teatro Regional da Serra do Montemuro.

Informações e reservas através dos contactos: geral@teatromontemuro.com  |  919 518 393.

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