Há uma altivez silenciosa que se infiltra nos corredores da cultura. Habita certos agentes culturais e artistas como uma aura invisível, mas densa, feita de convicções absolutas e de uma ideia perigosa: a de que a arte lhes pertence mais do que aos outros.
É uma soberba disfarçada de erudição, que se expressa em discursos herméticos e curadorias excludentes, como se a sensibilidade estética fosse um clube privado com senha de entrada. Os que ousam fazer arte sem os códigos certos são vistos como intrusos ou, pior, como ingênuos. E os que a consomem sem “saber ler” são tolerados com um sorriso condescendente, como quem observa
uma criança a brincar com porcelana.
Mas cultura não é pedestal — é chão. E arte não é escada para vaidades, mas janela para o mundo. Quando se fecha essa janela com dogmas, quando se cobre o espelho da criação com véus de superioridade, mata-se aquilo que de mais vivo ela tem: a partilha, a provocação, o diálogo.
Urge, pois, combater essa soberba. Com generosidade. Com espaços abertos onde a cultura não seja uma moeda de prestígio, mas um bem comum. Onde se aceite que a beleza também nasce no erro, na ousadia sem técnica, no popular, no marginal.
Porque ninguém é dono da arte. No máximo, podemos ser seus hóspedes por instantes breves — e quanto mais humildes formos ao entrar, mais ela nos revela.
António Leal















