ARTIGO DE OPINIÃO: Amor de Mãe

14/05/2025 18:30

Num dos episódios mais belos de Os Lusíadas, no discurso que dirige a Afonso IV, tentando convencê-lo a poupar-lhe a vida, Inês de Castro deixa para o final o argumento mais forte e aquele que mais sublinha a injustiça da sua morte: invocando o amor de mãe e o medo de deixar os filhos órfãos, é por eles que pede ao pedir por si. Não é a morte que a assusta – qualquer mãe daria a vida pelos filhos – é pensar que os deixa – esses «mininos» que «tão queridos tinha e tão mimosos» – desprotegidos sem o cuidado do seu amor. Inês fala para proteger os filhos. 

Num dos trechos mais belos de Memorial do Convento, também para a filha vão os pensamentos de Sebastiana Maria de Jesus, uma das cinquenta e três mulheres condenadas que integram a procissão do auto-de-fé:

«(…) não ouvi que se falasse da minha filha, é seu nome Blimunda, onde estará, onde estás Blimunda, se não foste presa depois de mim, aqui hás-de vir saber da tua mãe, e eu te verei se no meio dessa multidão estiveres, que só para te ver quero agora os olhos, a boca me amordaçaram, não os olhos, olhos que não te viram, coração que sente e sentiu, ó coração meu, salta-me no peito se Blimunda aí estiver, entre aquela gente que está cuspindo para mim e atirando cascas de melancia e imundícies, ai como estão enganados, só eu sei que todos poderiam ser santos, assim o quisessem, e não posso gritá-lo, enfim o peito me deu sinal, gemeu profundamente o coração, vou ver Blimunda, vou vê-la, ai, ali está, Blimunda, Blimunda, Blimunda, filha minha, e já me viu, e não pode falar, tem de fingir que me não conhece ou me despreza, mãe feiticeira e marrana ainda que apenas um quarto, já me viu, (…) não fales, Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo são capazes de ver (…).»

A ligação entre ambas é tão forte que mãe e filha não precisam de palavras para comunicar, bastam-lhes o coração – que dá a Sebastiana sinal da presença de Blimunda – e os olhos – que gritam o amor silencioso. Não são os açoites ou o degredo que a assustam – qualquer mãe os sofreria pelos filhos – é pensar que Blimunda possa vir a passar pelo mesmo, precisamente por ser sua filha. Sebastiana não fala – e pede a Blimunda que também não fale – para proteger a filha. 

Às vezes, o amor fala; outras vezes, o amor cala. 

Elisabete Bárbara

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *