“A Cozinha Sentimental de (Lafões) inspira-se na fertilidade da terra e no desembaraço humano, fez nascer segredos que ainda hoje perduram na cultura gastronómica local.” IN “Carta dos Segredos Gastronómicos Dão Lafões e Alto Paiva”

A Páscoa aparece-nos associada a um quadro religioso e sentimental de passagem, procura de um caminho novo, vestir de branco, saudar uma ressurreição que conduza o espírito e as ações para uma nova caminhada ao encontro da LUZ. Memórias de um cantar triste e doloroso, jejuns de paixões, rezas e procissões de passos apaixonados por um Cristo crucificado pelos males de todos nós. Por tudo isto e muito mais a Páscoa surge associada a diversos rituais ancestrais, ligados alguns ao enamoramento, como lançar a “reza” entre namorados ou amigos e familiares, aguardando as amêndoas doces como pagamento.
Um destes rituais tem um significado social importante, num quadro de uma cozinha muito sentimental, também uma iguaria gastronómica num quadro de uma doçaria diversificada e territorial. Falamos dos diferente e singulares doces do FOLAR de Páscoa.
De norte a sul do país são múltiplos os exemplos do FOLAR, um pão tradicional da Páscoa, doce numas regiões, salgado noutras. Na sua base estão elementos fundamentais da nossa cozinha regional, como a água, o sal, os ovos e a farinha de trigo, havendo depois muitos outros ingredientes que se lhe acrescentam, consoante a região do país e a receita propriamente dita. De uma forma geral, no norte do país o folar é mais salgado (e costuma em vários casos incluir enchidos); à medida que se vai descendo para o centro e o sul, o folar vai ficando cada vez mais doce.
No território de Lafões a origem do folar da Páscoa é tão antiga que não se consegue localizar no tempo. Contam-se histórias, como aquela da lenda que nos diz que numa aldeia portuguesa, uma jovem chamada Mariana sonhava casar muito jovem e que, por isso, rezava dia e noite a Santa Catarina. A Santa, ouvindo as suas preces, pôs no seu caminho dois pretendentes: um fidalgo rico e um lavrador pobre, ambos cheios de qualidades. Mariana não sabia qual deles escolher e, por isso, rezou a Santa Catarina, novamente, em busca de respostas. Tanto rezou a Santa Catarina que a ajudasse a escolher o homem certo, que a resposta apareceu um dia em forma de um bolo, que ajudaria a reconciliar famílias e a trazer a paz e a felicidade à jovem moça.
Este bolo era antigamente denominado de “folore”. O folar da Páscoa é uma tradição viva portuguesa, doce importante no conjunto da doçaria de Lafões. Levada a sério, requer uma coreografia de oferendas entre madrinhas e afilhados durante a época da Páscoa: os afilhados levavam, no Domingo de Ramos, um ramo de violetas às madrinhas e, mais tarde, no Domingo de Páscoa, as madrinhas ofereciam aos seus afilhados um folar, servindo este bolo para simbolizar os laços afetivos entre eles. Também se ofereciam os Folares aos padres, prova do respeito que por eles tinham as populações.
No território de Lafões podemos encontrar diferentes versões do Folar, desde o famoso FOLAR de Vouzela (sobre o qual já aqui escrevemos antes; o folar de Vouzela era confecionado pelas doceiras locais, sob encomenda das famílias mais abastadas, que por altura da semana da Páscoa os encomendavam, fornecendo as matérias-primas necessárias e pagando às doceiras apenas a mão-de-obra), o Folar Trigo Doce (Pindelo dos Milagres) ou o FOLAR da PONTE (S. Pedro do Sul),
Sobre o Folar da Ponte aqui se transcreve um excerto de uma obra consultada (Carta dos Segredos Gastronómicos) , com as palavras da Dona M. Delmira Moreira, moradora no Bairro da Ponte, São Pedro do Sul
“Havia muitas padarias por aqui, no Bairro da Ponte, faziam-se as Carcaças, as Arrufadas, a Triga-Milha, e a minha mãe ia vender pelas aldeias à volta daqui. Também havia o hábito de fazer o Folar que ficou conhecido como o Folar da Ponte. Aprendi com a D. Ilda Marques Brito e com a filha dela, que o faziam muito bem. Ainda hoje, sigo a receita delas. Ponho farinha de trigo, ovos, sal, açúcar, canela, fermento e manteiga. Amasso tudo à mão, sem batedeira. Antes de pôr a fintar, costumo fazer uma cruz na massa e digo «em nome do Pai, Filho e Espírito Santo, Amén, finte bem e venda também». Depois, tendo os bolos num tendal e vão ao forno depois de fintar. Corto a massa em cima com uma tesoura, pincelo com ovo e ponho um bocadinho de açúcar. Estes Folares eram vendidos nas feiras e aos domingos, à saída da missa. Comia-se com queijo e com manteiga.”.
Sobre a tradição do Folar de Vouzela transcreve-se aqui também um excerto da mesma obra: “A minha mãe não fazia folar, nunca aprendeu. Mas a D. Filomena é que, talvez, tenha trazido para cá os folares. Eu acho que foi essa senhora. Ela ia fazer, normalmente pela Páscoa, a várias casas particulares. E houve uns anos que também foi à minha mãe. Ela ia à noite, fazia a massa, deixava-a para o dia seguinte a levedar. Ela aquecia os ovos dentro de uma bacia com água morna, e levava farinha e açúcar e acho que azeite. No dia seguinte, ela ia e tirava a massa da masseira e lá fazia o formato do folar. E, no meio na dobra, punha manteiga e açúcar. E lá iam eles a cozer ao forno. Vinha muita gente do Balneário buscar o Folar para levar para casa.” M. José Balonas – Vouzela
Em tempos idos uma Páscoa sem folar ou amêndoas não era verdadeira Páscoa. Presentemente, é importante que se relembrem estas tradições, eivadas de saberes e sabores singulares, que nos devem levar a sentir orgulho por este património e responsabilidade em procurar preservá-lo e levá-lo aos mais novos.
Carlos Almeida (Vice-Presidente da Confraria dos Gastrónomos de Lafões)
Consultas: Carta Gastronómica de Lafões; Carta dos Segredos Gastronómicos Dão Lafões e Alto Paiva (CIM Viseu Dão Lafões).















