ARTIGO DE OPINIÃO: E, ao terceiro capítulo, Afonso ressuscitou

14/06/2023 18:30

Quando deixámos Afonso, destroçado, no final do capítulo II de Os Maias, não esperaríamos reencontrá-lo logo na página seguinte – embora passados alguns anos, que nisto do tempo a literatura, ao contrário da vida, faz dele o que quer – assim tão rejuvenescido que, tal como Vilaça, mal o pudemos reconhecer, transformada que estava a sua «face cavada» pelo suicídio do filho numa face corada pelo amor do neto. Contrariando as expectativas – tanto as do procurador como as nossas, leitores – Afonso da Maia, a quem a morte roubou o filho, encontrou em Carlos a razão que lhe devolveu a vida. 

Não será por caso que, se deixámos Afonso na sua livraria de «janelas cerradas ao lindo sol de Inverno», o terceiro capítulo nos recebe de portas abertas, cheio de luz «fina e larga», virado ao sol, numa «manhã de Abril», «nas vésperas de Páscoa», no «primeiro dia bonito» da Primavera: a manhã representa início, a primavera o renascer da natureza, a Páscoa a vitória da vida sobre a morte. Até as «porcelanas e pratas resplandeciam», até «o verniz dos móveis novos brilhava», até o «tapete alvadio» estava «semeado de florzinhas azuis», até «os canários pareciam doidos de alegria»!

No entanto, não é só a oposição entre inverno/escuridão e primavera/luz que marca simbolicamente a transformação de Afonso da Maia; na verdade, também a posição e o movimento são elementos a considerar. Se, no final do capítulo II, encontramos o pai destruído «caído para uma poltrona», no início do capítulo III encontramos o avô restabelecido a subir uma «rua de romãzeiras», o que não só opõe um Afonso estático, num espaço fechado, a um Afonso dinâmico, num espaço aberto, como opõe uma perspetiva descendente («caído») a uma perspetiva ascendente («a subir»), reforçando a ideia de que a personagem se consegue voltar a erguer, salvo pelo amor que sente pelo neto.

Quando encontramos Afonso a subir a tal rua de romãzeiras (e não falaremos aqui da simbologia da romã), o narrador diz-nos que traz «o seu neto pela mão», quando, na verdade, foi Carlos que lhe deu a mão.


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