Nem sempre é fácil falar de luto já que isso nos “empurra” de imediato para a ideia de morte e é certo que a grande maioria de nós tem dificuldade em aceitar as perdas e em lidar com a finitude e com o que não conhecemos.
No entanto, o luto não só é vivenciado perante a morte física de alguém como também sempre que ocorre uma perda significativa na nossa vida, tal como um final de um namoro, uma perda de emprego, uma mudança de casa, entre outros. Assim sendo, numa determinada altura da vida, todas as pessoas têm de lidar com o luto.
O luto desperta inúmeras reações e pode afetar a pessoa de forma integral em todas as suas dimensões: física, emocional, comportamental, cognitiva e espiritual. O luto é, então, um conjunto de reações a uma perda significativa. Segundo John Bowlby, quanto maior o apego ao “objeto” perdido (que pode ser uma pessoa, um animal, uma fase da vida, um determinado estatuto social, um sonho, entre outros), maior o sofrimento do luto. O luto define-se como um processo, uma travessia, um percurso, mas não um estado. É vivenciado por cada pessoa de uma forma diferente e influenciado por fatores biológicos, de personalidade, de cultura, o meio em que se está inserido e o próprio contexto da perda.
Vários autores de diferentes perspetivas definiram modelos e abordaram o processo de luto. Para Worden (1983), são 4 as tarefas que permitem fazer o luto e assegurar que o processo é feito de forma adaptativa (estas tarefas não precisam de ser realizadas nesta ordem específica):
1. Aceitar a realidade da perda
Perante a morte, nomeadamente em situações inesperadas, a sensação é de choque. Existe uma sensação de irrealidade e descrença. É natural que a pessoa se sinta incrédula. É importante aceitar a nova realidade. Os rituais e as cerimónias ajudam a aceitar a perda e a tomar consciência da realidade.
2. Processar a dor e o sofrimento
A segunda tarefa deste processo acontece quando a pessoa se desorganiza e experiência o desespero. É a altura em que sente e processa a dor. Embora nem todas as perdas evoquem o mesmo tipo de resposta emocional, podem manifestar-se sentimentos como tristeza, raiva, culpa, ansiedade e solidão persistente, entre outras reações. Para resolver um luto é necessário passar por ele, é necessário dar lugar à dor e ao sofrimento. É necessário permitir-se experimentar todas as emoções e não as evitar. A expressão das emoções deixa espaço para novas emoções como o amor, a saudade, a alegria, a tristeza, entre outras. Passa a ser possível recordar sem um sofrimento intenso e constante.
3. Adaptação
A adaptação diz respeito à tomada de consciência progressiva das perdas. Os ajustes também variam dependendo do relacionamento com a pessoa que se perdeu e os diferentes papéis que desempenhava e exigem tempo.
4. Reinvestimento
Nesta tarefa a pessoa permite-se estabelecer novas relações afetivas fortes. A relação com a pessoa perdida não terminou com a sua morte e é necessário ser colocada num lugar onde possa ser recordada com amor e carinho. Ao mesmo tempo abre-se espaço para se prosseguir a vida e estabelecer outras relações.
O luto pode trazer maturidade e crescimento. Tanto a felicidade das conquistas como a dor da perda fazem parte da vida. Quando se perde alguém ou algo significativo, há também a sensação de perda de uma parte de nós. Esta sensação pode permanecer no tempo como um vazio ou dar oportunidade a novos significados, ao desenvolvimento pessoal, a transformações. Sempre que se passa por um processo de luto algo se transforma. Não se fica igual depois de uma perda. Há sempre diferença, há transformação.
O luto pode ser um processo e uma oportunidade de transformação.
















