Todos os livros nos dizem alguma coisa, mas há aqueles que fazem questão de falar connosco, como é o caso de Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, e de Dom Casmurro, de Machado de Assis, em que somos permanentemente interpelados pelo narrador, numa estratégia dialógica que, ao explicitar a comunicação narrativa, coloca em evidência a sua composição; na verdade, a interpelação ao «leitor» e à «leitora», se aponta para a presença do narratário, tornando-o visível, mais expõe a presença do narrador, mostrando-o responsável não só pela revelação dos acontecimentos como também pelas estratégias de captação da atenção do leitor, nas quais se incluem a estrutura ou a organização discursiva.
Ao dizer «A minha opinião sincera e conscienciosa é que o leitor deve saltar estas folhas, e passar ao capítulo seguinte, que é outra casta de capítulo.», o narrador de Viagens na Minha Terra não só se dirige diretamente ao leitor para o aconselhar – ironicamente – a virar a página como tenta manter o seu interesse; por outro lado, ao falar em capítulos, expõe a narração como processo e não como produto, deixando que se identifiquem traços da sua construção sequencial. Encontramos o mesmo procedimento em Dom Casmurro: com a formulação «Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro.», mais uma vez prova de dialogismo, o narrador explicita o título como elemento constitutivo do livro e o livro como processo de escrita.
Em Viagens da Minha Terra, «leitor benévolo», «leitor amigo», «erudito e amável leitor», «amigo e benévolo leitor», « benévolo e paciente leitor», «leitor cândido e sincero», «caro leitor meu indulgente», «caro leitor» e «amigo leitor» são algumas das expressões com que o narrador se vai dirigindo ao leitor; já as leitoras são interpeladas muito menos vezes e só relativamente a assuntos do coração, como acontece na novela, ou à descrição de Carlos, herói romântico capaz de arrebatar por unanimidade o público feminino. Talvez por isso o narrador se lhes dirija com recurso a formulações como «belas e amáveis leitoras», «amáveis leitoras» e «curiosas leitoras», recorrendo quase sempre – e significativamente – ao plural que não usa com o seu interlocutor masculino.
Em Dom Casmurro, «leitor amigo», «meu caro leitor», «desgraçado leitor», «leitor precoce», «senhor meu amigo», «leitor meu amigo» e «leitor» são algumas das expressões com que o narrador vai convocando o leitor; já a leitora é interpelada muito menos vezes e só para evitar que certos comportamentos do narrador, na ausência de esclarecimento ou justificação, pudessem ser entendidos como sacrílegos ou imorais, o que explica as formulações «leitora minha devota» ou «leitora castíssima».
Assim, se a interpelação ao «leitor» e à «leitora» – ou às «leitoras» – explicita a comunicação narrativa e o dialogismo que lhe subjaz, expondo procedimentos metadiscursivos, deixa também perceber que o narrador traça o perfil e os hábitos tanto do leitor como da leitora, separando-os por meio dos interesses – e dos juízos de natureza ideológica – com que os distingue. Na verdade, se gostos não se discutem, esta distinção – marcadamente irónica – traz para a discussão a questão da educação do gosto e da cultura de quem lê.
















