A história de Jeffrey Dahmer estreou a 23 de setembro na plataforma de streaming Netflix e já conta com mais de 196 milhões de horas de visualizações na semana de estreia. Esta série relata a história de Jeffrey Dahmer, um serial killer que entre 1978 e 1991 matou 17 homens nos EUA. Além dos crimes, a série aborda o racismo e a homofobia sistémica que se vivia na altura.
A representação da doença mental e da psicopatologia em séries e filmes tem tido cada vez mais adeptos. O crime é um dado tão antigo quanto o ser humano e sempre atraiu a sua curiosidade. Apesar do grande crescimento e evolução da humanidade, o crime continua a manter o seu fascínio na imaginação coletiva e a impressionar o ser humano. Por alguma razão, cada um dos casos e histórias que aparecem no ecrã, tocam em algo das profundezas da condição humana. Talvez, tal se deva às personalidades envolvidas e à empatia com as suas comuns histórias de sofrimento, à insanidade da corrupção criminal, ao persistente incómodo da dúvida sobre uma justiça que não se fez ou à desilusão de saber que não há consequências devidas para tais crimes. De qualquer forma, os casos permanecem como um mistério e deixam-nos perplexos, mexendo com as nossas emoções e perceções.
Ao provocar emoções, assistir filmes e séries pode abrir portas que, de outra forma, poderiam permanecer fechadas. O olhar insistente do cinema para os distúrbios psíquicos, explica Paolo Pancheri, professor de psiquiatria na Universidade La Sapienza, de Roma, “deve-se ao fato de que esses distúrbios têm uma repercussão profunda nas pessoas, assim como a violência”. Os distúrbios mentais mostrados na tela remetem para aquele fundo patológico, de loucura ou de alteração, que está presente em todos nós.
Posto isto, têm existido vários especialistas a debruçarem-se sobre este tema da atração pelo ecrã dos crimes e os principais argumentos prendem-se com a ideia de estar relacionado com a nossa necessidade de proteção. Assim, defende-se a premissa de que nos sentiríamos mais a salvo se desvendássemos como a mente dos criminosos funciona, para podermos agir em conformidade em caso de perigo. Outra teoria é de que estas histórias nos trazem um certo alívio por não sermos nós as vítimas (nem os perpetuadores) da violência. Para além disso, existem também alguns estudos focados na parte sensorial, defendendo que, hoje em dia, os nossos sentidos (paladar, olfato, tato, visão, audição) estão bastante mais atrofiados e são muito pouco estimulados adequadamente. Então, o ser humano precisaria de perceções sensoriais mais fortes para poder sentir-se envolvido com o contexto e sentir-se estimulado. O que por sua vez, resulta em filmes e séries cada vez mais violentos, com histórias mais bizarras e bárbaras e bandas sonoras mais intensas para haja libertação de dopamina (hormona ligada à sensação de prazer/motivação) que está atrofiada.
Um ponto negativo do tipo de atenção que uma série/filme sobre um crime de grande repercussão possa ter é o impacto nos familiares envolvidos e até em toda a comunidade na qual o caso se passou. Assim, conforme a história for retratada, pode ser ativadora de um conjunto de sintomas e de memórias traumáticas que estas famílias têm, em particular porque a maior parte destas séries/filmes se centra na vida do criminoso e deixa em 2º plano a história das vítimas.
















