ARTIGO DE OPINIÃO: Água

16/09/2022 19:00

A nossa vida é feita de ciclos. Somos geridos pelo tempo, pelas horas e pelos minutos, e tentamos viver a nossa vida definindo objetivos; são esses objetivos que nos fazem percorrer os anos, os meses e os dias. Por vezes até são objetivos simples: ser feliz, ter um emprego estável, ter saúde, fazer o que se gosta… claro que por vezes esses objetivos, por muito simples que pareçam, tornam-se muito difíceis de alcançar ou até mesmo impossíveis. Mas o tempo tudo resolve, até mesmo o que está condenado a nunca ter uma resolução. A vida é mesmo assim, depois deste estranho interregno trazido pela pandemia que, por um momento, pareceu quebrar o ciclo, eis que ele aí está novamente… o ciclo do tempo.

Setembro traz-nos o regresso à rotina, ao trabalho e à escola. O verão está a terminar e em breve será outono. Chegam as primeiras chuvas após meses intensamente quentes e secos. A terra absorve as gotas preciosas de água, tentando também recuperar um ciclo há muito quebrado. Na verdade todo o território anseia por esta água preciosa, cuja falta está a tornar-se demasiado angustiante para todos.

Ao longo dos tempos a água foi sendo um elemento explorado por diversos artistas de diferentes formas. Um desses artistas foi Claude Monet. Quando visitei pela primeira o Museu de L´Orangerie em Paris fiquei fascinada pela sua pintura. Ao entrar numa das duas salas ovais onde estão expostas as suas pinturas “Nenúfares” senti-me completamente envolvida pelo ambiente mágico, pela cor, formas e pela luz. De facto Claude Monet faz uma representação da água, das flores, da vegetação e dos seus reflexos de forma única e impressionante. Os painéis pintados, de diferentes tamanhos estão unidos uns aos outros de forma a preencherem as paredes ovaladas. Esta disposição, planeada pelo próprio Monet, permite-nos uma visão, que se quer distanciada, mas muito abrangente da pintura. Estes painéis foram pintados nos últimos 30 anos da sua vida e têm como fonte de inspiração aos jardins da sua casa em Giverny.

No entanto, é impossível falar de Monet sem referir a sua grande obra-prima: “Impressão: nascer do sol”. Considerada a primeira obra impressionista, pintada em 1872, muito antes dos “Nenúfares”, ela abriu a porta a um mundo de possibilidades em termos artísticos, ao nascimento de uma visão moderna em que o importante foi captar o momento de luz, o instante, o ambiente, sendo os reflexos luminosos e a cor alcançados através de pinceladas subtis. 

Sim, se quisermos analisar a obra de um artista onde o elemento água é fundamental, esse artista é Claude Monet, quer na sua representação, quer na sua contribuição para a construção dos ambientes e instantes e na sua ligação com a luz.

Agora que damos continuidade ao ciclo das nossas vidas, é tempo de refletirmos seriamente noutros ciclos que dependem das nossas ações e da nossa vontade.

Somos porque ela existe: a água.


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