Mundialmente, estima-se que o cancro da mama na mulher seja o tumor mais diagnosticado e aquele que mais mortes por cancro provoca na mulher [1]. Existem diversos fatores de risco para o cancro da mama que podem ser modificados e com isso ajudar na prevenção. Alguns desses fatores são a exposição hormonal externa (p. ex. terapia hormonal de substituição), idade avançada no nascimento do primeiro filho, menor número de filhos, exposição a radiação ionizante, dieta ocidental, obesidade, sedentarismo, tabagismo e consumo de bebidas alcoólicas [2,3]. Contudo, existem fatores de risco que não podemos modificar, tais como o género feminino, elevada densidade mamária, presença de lesões pré-malignas, exposição hormonal individual (primeira menstruação precoce e menopausa tardia), avançar da idade e predisposição genética. De facto, estima-se que 5 a 10% dos cancros da mama sejam hereditários [3].
O que são os genes e porque podem provocar cancro da mama?
Os genes são responsáveis por aquilo que nós somos, enquanto espécie e seres vivos, e são passados de geração em geração de pais para filhos. São responsáveis por coisas tão simples como a cor dos olhos ou do cabelo. Alguns genes quando apresentam erros (mutações) e são passados de geração em geração, podem originar doenças entre as quais alguns cancros, incluindo o da mama. A suscetibilidade ao cancro da mama associa-se geralmente a mutações em alguns genes, sendo que é mais comum ocorrer nos genes BRCA1 e BRCA2 (existem ainda outros genes menos frequentemente associados). No caso destes dois genes, eles asseguram mecanismos de reparação do material genético perante erros que acontecem normalmente quando as células se dividem [4]. Quando estão alterados há maior probabilidade destes erros poderem desencadear um processo de crescimento maligno. Contudo, é importante salientar que, apesar de aumentarem muito o risco, não quer dizer que os portadores destas mutações vão obrigatoriamente ter um cancro, pois o aparecimento de um cancro é algo que depende de múltiplos fatores. Estima-se que, entre 55-72% dos portadores da mutação no BRCA1 e 45-69% dos portadores da mutação no BRCA2, desenvolvam cancro da mama até aos 70-80 anos de idade [5]. As mutações nestes genes estão também associadas a outros cancros como o do ovário, próstata, pâncreas, entre outros [4].
Se tiver um cancro da mama ou tiver um familiar próximo com, tenho de fazer um teste genético?
A grande maioria dos cancros da mama são esporádicos, o que quer dizer que não têm base genética. Existem critérios específicos para se realizar um teste genético, aquando de um diagnóstico de cancro da mama, que o seu Médico tem em atenção. Alguns deles são [2,6]: diagnóstico de cancro da mama antes dos 45 anos ou, nalguns tipos de cancro da mama menos frequentes, poderá ser alargado até idades mais avançadas; história familiar relevante de cancro da mama, ovário, pâncreas ou próstata; história de cancro do ovário na mesma pessoa ou segundo cancro da mama; história de cancro da mama no homem.
Aqueles que têm história familiar de mutações BRCA1 ou BRCA2, que têm mais de 25 anos e nunca fizeram o teste genético, devem ser avaliados numa consulta de Genética Médica [7].
Foi-me diagnosticada uma mutação nos genes BRCA1 ou BRCA2. O que posso fazer?
Há estratégias para prevenir o surgimento de cancro da mama, reduzindo o risco, salvo contraindicação, que poderá discutir com o seu Médico [3,7], como:
- Mudança de estilos de vida, nomeadamente, ter uma dieta saudável, praticar exercício físico regular, manter um peso saudável, limitar ou, preferencialmente, suspender o consumo de álcool e tabaco;
- Evitar terapia hormonal de substituição, se possível;
- Em caso de ter sido mãe recentemente, deve ser encorajada a amamentação;
- Vigilância e rastreio através do exame clínico da mama periódico e procura de cuidados médicos em caso de sentir alguma alteração na mama ou gânglios (linfáticos) à volta;
- Cirurgia redutora do risco, que foi o que a atriz Angelina Jolie fez em 2013 por ser portadora de uma mutação BRCA1 [8].
A cirurgia (remoção completa de ambas as mamas) é o método mais efetivo para reduzir o risco em portadores das referidas mutações, diminuindo-o em aproximadamente 90%. Mesmo nas pessoas que já foram diagnosticadas com um cancro da mama, pode ser equacionada a cirurgia à outra mama. Contudo, os benefícios, limitações, riscos e complicações cirúrgicas e o impacto psicossocial devem ser considerados e discutidos com o seu Médico.
E tenho de fazer rastreios para outros tipos de cancro?
As indicações para rastreio deverão ser discutidas com o seu Médico. De uma forma geral:
- No cancro do ovário não há um rastreio eficaz e poderão ser implementadas medidas modificadoras de estilos de vida ou, nalguns casos, cirurgia de remoção dos ovários [7].
- Nos outros cancros (próstata, pâncreas e melanoma) não existe evidência robusta do rastreio dos mesmos e as pessoas devem ser informadas da sua limitada eficácia, devendo o risco/benefício em rastrear, ser individualizado caso a caso pelo seu Médico [7].
A prevenção e o conhecimento, bem como o acompanhamento/aconselhamento Médico, são fundamentais para reduzir os riscos e a ansiedade associados ao cancro da mama.
Aposte na Prevenção!
[1] Global Cancer Statistics 2020: GLOBOCAN Estimates of Incidence and Mortality Worldwide for 36 Cancers in 185 Countries | CA: A Cancer Journal for Clinicians [2] Early breast cancer: ESMO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment and follow-up | Annals of Oncology [3] Manual de Oncologia SPO Abordagem e Tratamento do Cancro da Mama | Sociedade Portuguesa de Oncologia [4] Know Your Risk / Breast Cancer Risk Factors | Breastcancer.org [5] BRCA Gene Mutations: Cancer Risk and Genetic Testing | National Cancer Institute [6] Programa Nacional de Genética e Cancro | Sociedade Portuguesa de Oncologia [7] Prevention and screening in BRCA mutation carriers and other breast/ovarian hereditary cancer syndromes: ESMO Clinical Practice Guidelines for cancer prevention and screening | Annals of Oncology [8] Risk-reducing mastectomy rates in the US: a closer examination of the Angelina Jolie effect | Breast Cancer Research and Treatment Journal















