Depois de, em agosto de 1709, o padre Bartolomeu Lourenço ter feito cinco experiências com balões de pequenas dimensões perante a corte portuguesa, em outubro fez nova demonstração do seu «instrumento para se andar pelo ar», desta vez com um balão maior do que os anteriores, que conheceu êxito total. Dois anos mais tarde, agora em Memorial do Convento, depois de Baltasar lhe dizer que «Voar balão não é voar homem», Bartolomeu respondeu que «O homem primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará».
À máquina de voar de Bartolomeu muitos chamaram, por desprezo, «Passarola», e ao homem com o sonho de voar, pela mesma razão, «Voador» chamaram. Uns não fazem mais do que tentar deitar abaixo, outros não aceitam menos do que elevar-se. Os primeiros não sabem que o sonho comanda a vida, os segundos ignoram os primeiros.
Se, após a morte de Bartolomeu Lourenço, em 1724, a sua máquina de voar ficou esquecida ao longo de várias décadas, até ser reinventada em França, em 1782, pelos irmãos Montgolfier, a literatura não deixou que a «Passarola» – em representação da vontade que fecunda o sonho – suspendesse o seu voo inspirador sobre os tempos.
Para além de Saramago, também Gedeão, na sua Pedra Filosofal, de 1956, liberta a «Passarola» do esquecimento, referindo-a na 4.ª estrofe do poema, referência essa que integra a longa enumeração que ocupa os seus 24 versos. Todos os elementos enumerados exemplificam quer a vontade de sonhar quer a concretização do sonho – dimensões que se verificam na pluralidade criadora dos indivíduos e de que a arte e a ciência são humana, complementar e sublime manifestação – funcionando como uma sinopse do caminho evolutivo da civilização até à chegada à lua, feito que lhe serve de corolário.
É impossível, neste ponto, não recordar Campos quando diz, na sua Ode Triunfal, que «há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas»; na verdade, o presente é a vontade do passado.
Não deixa de ser curioso ver que, após a referência à «Passarola Voadora», no 17.º verso da referida estrofe, todos os elementos a seguir gradativamente enumerados – para-raios, locomotiva, barco, alto-forno, geradora, átomo, radar, ultrassom, televisão, foguetão e superfície lunar – se inscrevem nos domínios da ciência e da tecnologia, o que pode salientar quer a importância da «Passarola» como precursora destes avanços contínuos quer o alcance – quase sempre insuspeitável – do sonho que, um dia, alguém fez por concretizar e do qual até aqueles que dele escarneceram vêm a usufruir.
















