Boa noite, querido Ega.
Cá me encontro, de novo, em Paris, instalado nos Champs Elysées, depois da minha breve passagem por Lisboa. Juntos estivemos e estaremos muitas outras vezes. A vida e as suas circunstâncias fizeram de nós irmãos, não de sangue, mas de destinos.
Gostei de te ver. Tinha saudades tuas. Da tua maneira de viver. Do teu estilo chiquérrimo. Da tua verve. Das tuas eternas aventuras adúlteras. Folguei em saber que retomaste a velha vontade de publicar um livro, agora um relato de viagens ao Oriente. As tuas, quiçá as nossas, Jornadas da Ásia. Realmente, as Memórias de um Átomo ficaram no fundo de um armário e não passaram de umas folhas soltas e insípidas.
A vida muda-nos, menino, e da geração Coimbrã pouco nos resta. Que utopia a nossa! Querer mudar o país, revolucionar os pensamentos, mostrar a verdade nua dos factos, dos comportamentos de uma sociedade doente e, afinal, quem adoeceu fomos nós. O mal pega-se.
Continuo os meus passeios no Bois, no meu novo faetonte. Vivo como um príncipe. Nada me falta e, no entanto, falta-me tudo. Aquela semana horrível continua a pesar-me lá num cantinho obscuro da minha existência frívola.
Ao passarmos pelo Ramalhete, tive umas saudades desmedidas do avô. Da sua força. Da alegria que depositara em mim. Da sua educação rígida, tentando contrariar as forças da genética e da educação de meu pai. O velho avô de barcas brancas, tombado no jardim. Vergado pelo desgosto!
Regressei a Santa Olávia, em Resende, e já nem as árvores que ajudara a plantar na minha infância, com os criados da quinta sob o olhar maravilhado do avô, eram as mesmas. Tinham um ar de tristeza e de ausência. As vinhas, contudo, continuam belas nos seus socalcos. O vinho continua a ser bem vendido, sobretudo aos ingleses. A natureza agradece os cuidados dos homens do Douro, a sua sabedoria milenar do cuidar da uva bendita com o néctar inconfundível do rio que lhes corre aos pés.
Lisboa arrasa. Lisboa torna-nos amarelados e calvos. Há que fugir a sete pés! Deixa-te dessas ideias de diplomata. Isso vai dar-te a volta à cabeça como deu ao nosso amigo Eça. Foge, enquanto é tempo! Não queiras imitar essa geringonça de políticas marionetas de grupos financeiros que sempre viveram à custa dos pobres. Estão obesos e cheios de impigens da sífilis. Até as mulheres deixaram de os apreciar com as suas lunetas. Até a pobre Gouvarinho perdera o interesse da coqueteria. Coitada, rica, mas sem graça!
O velho amigo de meu pai e, afinal, de minha mãe, o Alencar, continua a poetar. E a sua grenha romântica é, agora, uma juba branca sobre a sua face cada vez mais escaveirada. O que faz de nós o tempo, menino! Até a alma muda avec le temps! O Tejo e o céu azul de Lisboa são o que nos vale. E o nosso sol. A sua luz única sobre a cidade das sete colinas. Se uma gaivota viesse, trazer-me o céu de Lisboa…
Gostei de rever o Cruges, o velho Cruges, cada vez mais marreca de tanto martelar as teclas de um piano que ninguém ouve, um país de patetas. Lembras-te daquela noite negra do Sarau no Teatro da Trindade? Uma noite que iniciava a revelação trazida por Guimarães, o velho tio de Dâmaso, o bêbedo assumido num jornaleco qualquer. A Corneta do Diabo ou A Tarde? Já nem sei. Também já nada disso importa.
Ao que nós chegámos! Onde ficaram os ideais das Conferências da Geração de 70? Pobre Antero!
Aquela cidade tresanda. Cheira a ratos famintos, perdidos nos esgotos. As copas das árvores continuam mal aparadas. Nas ruas, já pouco se ouvem as varinas e as que há já não gingam as ancas com as canastras à cabeça com o vigor de outrora. Tudo parece postiço.
No Rossio, muitos vadios politicando. À porta da Havanesa o Dâmaso, cada vez mais gordo, continua a mamar os seus charutos! Já viu tempo de aprender a fumar como um gentleman. Uma gente feia e sem brio, parola, percorre molemente a Avenida. Que gente reles, caramba! Nada mudou. Apenas as rugas e a calvície dos sujeitos, que continuam encostados às mesmas portas onde os víamos há dez anos, se acentuaram. Os jovens, agora, usam botas de cano, agudíssimas nas pontas reviradas…Nem para imitar os outros são bons! Parece que desistiram das Corridas de Cavalos à inglesa. Aqui tiveram juízo. Aquilo era ignóbil!
Tudo é sórdido. Caricatural. Cada vez pior. E o Eusébio parecia ainda mais fúnebre, ainda pode ser deputado ou até ministro. Não me admirava nada!
Sei que ficaste feliz com as notícias que te dei de Maria Eduarda. Vai casar. Anunciou-mo numa carta breve. Pouco falava de Rosa. Tenho saudades da miúda, da minha sobrinha. Que fatalidade!
Falhámos a vida, menino! Não passamos de uns românticos, afinal como os outros. Regemos a vida pelo coração. Teríamos sido mais felizes se nos tivéssemos mantido inflexíveis, hirtos, lógicos, racionais, frios. Temos apenas a vantagem de não termos de nos esforçar inutilmente porque amanhã seremos pó, semelhantes ao feno e à flor do campo.
Enquanto isso não acontece, vivamos neste passinho miúdo, apreciando o bom vinho, a boa comida e as Folies Bergère.
Se voltar a Portugal, comeremos um grande prato de paio com ervilhas no Bragança. Prometo.
Faz o favor de me visitares aqui na cidade luz, onde todas as paixões se curam tant bien que mal.
Um terno abraço do teu amigo de sempre.
O teu irmão de alma e coração.
Carlos da Maia.
(Paris, abril de 1887)
















