ARTIGO DE OPINIÃO: As maiorias absolutas

15/02/2022 18:30

As maiorias absolutas monocolores são, por natureza, perversas e tontas.

Porque têm o germe que fecunda tendências totalitárias, ameaçadoras do diálogo, castradoras do contraditório.

São a semente de onde brota o autismo político.

E porque os seus beneficiários se portam como sapos inchados, oleosos e anafados.

Pode haver milhentas intenções e outras promessas de que assim não vai acontecer, mas não passarão de pantominas e logros que, ao mínimo confronto, e postas à prova, não resistem à evidência, e se desnudam, mostrando o que são: propósitos mal disfarçados.

O centro do poder vai deslocar-se da AR, que se torna amorfa, oca e desinteressante, para o governo, que só espera dos deputados da sua cor simpáticas manifestações de cortesia e nenhumas reacções sérias de desagrado ou de censura.

A AR, ao invés de ser um fiscalizador exigente do governo, preferirá ser a sua caixa de ressonância. Perderá importância, no jogo político.

A oposição orgânica fará o que pode, denunciando o que lhe parecer mal, mas, por mais que resmungue e rezingue, o resultado prático é zero.

E a oposição inorgânica ocupará as ruas e as praças, dando corpo à contestação social.

Ainda assim, resta a esperança de que os órgãos fiscalizadores e reguladores, apesar de não tão independentes quanto isso, sejam o freio de que as maiorias absolutas precisam para se tornarem menos arrogantes na sua desmesurada vaidade e menos obesas no seu florescente deslumbre.

A recusa do PM em retomar os debates quinzenais, desculpando-se com o duelo que eles são, é um mau prenúncio do que aí vem.

Acontece, porém, e é uma esperança de criança, que os políticos podem fazer o que quiserem com as maiorias absolutas.

Até tornarem-nas apetecíveis, macias e suaves.

Em Portugal, delas, não há tão boas memórias assim, mas…

De qualquer modo, a estabilidade política, e as políticas de longo prazo, que as maiorias trazem, podem valer a pena, se, no final da legislatura, pudermos dizer que houve reformas e crescimento económico, que passou a haver menos e melhor Estado, se houver melhores salários e menos impostos, mais competitividade na economia e modernização do tecido empresarial.

Se assim for, e apesar de eu continuar céptico, haverá fundadas razões para se esquecerem as tentações malsãs das maiorias absolutas, e se valorizarem as suas supostas virtudes.

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