ARTIGO DE OPINIÃO: Folar de Vouzela- o sabor das tradições

01/02/2022 18:15

O território de Lafões orgulha-se de possuir um vasto e rico património gastronómico, em que a doçaria apresenta um espaço privilegiado, podendo escolher-se entre os pastéis de Vouzela ou de Ulveira, o Folar de Vouzela ou de São Pedro do Sul, o Pão-de-ló de Sul ou outros doces de feira… e sempre de mãos dadas com os sabores e os produtos tradicionais, arrancadas da terra ou temperados com a sabedoria dos antigos ou a temperança da herança religiosa.

Um destes produtos de eleição é o Folar de Vouzela, um bolo de fatiar, apresentado em forma de ferradura, seco e com recheio ligeiro de manteiga e açúcar granulado. Este maravilhoso Folar é feito com massa doce que precisa de levedar. Possui um aroma amanteigado e caramelizado. A crosta é fina e dourada e o interior é fofo, onde se encontra um recheio de manteiga e resquícios de açúcar granulado. Pode ter diversos tamanhos, sendo frequente o folar de meio kg e de 1 kg. Encontra-se diariamente nas terras em redor e na própria Vila de Vouzela.

Modo de preparação:

Ingredientes: 1 kg farinha sem fermento, 200gr açúcar, 10 ovos, 100gr manteiga, 60gr fermento de padeiro, 1 pitada sal (ingredientes opcionais: canela em pó q.b. e 1 colher sopa de vinho do porto).

Colocar a farinha em cima de uma mesa e abrir um buraco no meio. Adicionar a manteiga, o açúcar, os ovos inteiros, o fermento e os ingredientes opcionais. Amassar a massa, sem que fique muito dura e coloca-la a levedar por duas horas. Depois de a massa ter repousado, estende-se de uma só vez ou dividida em partes iguais (dependendo do tamanho ou peso que se desejar para os folares). Deverá ficar com o formato de um círculo. No centro da massa espalham-se montinhos de açúcar e manteiga (a gosto) que irá formar o recheio do folar.

Dobra-se a massa a meio sem achatar, deixando a parte de baixo ligeiramente maior, e dá-se o formato de ferradura ao folar. Pode pincelar-se o folar com um pouco de água e distribuir açúcar por cima. Descansa novamente, por uma hora.

Já num tabuleiro enfarinhado, o folar deve ser coberto de papel vegetal, e ir ao forno pré aquecido, em temperatura média, a rondar 200º. O tempo de cozedura dependerá do forno e do tamanho do folar, sendo 30 minutos o tempo de cozedura aconselhado para um folar de 1kg. Pode cozer mais ou menos, de acordo com o gosto pessoal. O folar cozido deverá ficar com um aspeto dourado escuro.

O folar de Vouzela é vendido à unidade, em formato pequeno e médio. Encontra-se disponível durante todo o ano nos estabelecimentos locais, podendo ser previamente encomendado em caso de quantidades grandes. Se for bem acondicionado, permanece em excelentes condições de consumo, por vários dias.

Historial do produto e Representatividade na alimentação local:

O seu fabrico e consumo são conhecidos na região desde o séc. XIX, não se afastando a possibilidade de já existir antes dessa data. Especula-se que a receita originária advindo de um receituário do convento de freiras Clarissas, no Porto, localizado na antiga rua das Eiras.

Tradicionalmente, o folar de Vouzela era confecionado pelas doceiras locais, sob encomenda das famílias mais abastadas, que por altura da semana da Páscoa os encomendavam, fornecendo as matérias-primas necessárias e pagando às doceiras apenas a mão-de-obra.

Esses folares eram depois ofertados, pelos afilhados às madrinhas, que lhes retribuíam o gesto com algum tipo de prenda. Ao longo do tempo, o consumo foi-se democratizando e, apesar de a procura aumentar na época pascal, o folar é regularmente consumido ao longo do ano. Para além de ser uma presença obrigatória na mesa pascal, pode fazer parte de uma refeição ligeira ou servido como sobremesa, simples ou acompanhado de queijo ou manteiga. Receita em uso, com produção diária ou sob encomenda. É produzido em pequena escala pelas famílias e fabricado e distribuído pelas padarias e pastelarias locais.

Elementos documentais:

Carta gastronómica da região de Lafões, Confraria dos Gastrónomos de Lafões, 2016.

Teleculinária, edição especial Páscoa, 1981.

Carlos Almeida

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