ARTIGO DE OPINIÃO: O inverno e a doença vascular periférica

08/01/2022 18:30

Existem diferentes doenças vasculares periféricas, como é o caso das varizes, da doença arterial obstrutiva periférica ou do aneurisma da aorta abdominal. Algumas doenças vasculares podem agravar durante o tempo frio, particularmente no inverno, e outras podem melhorar ou têm uma época particularmente atrativa para o seu tratamento. Vejamos as suas particularidades:

Os sintomas associados a varizes dos membros inferiores tendem a melhorar na época fria, em particular no inverno. Contudo esta melhoria sintomática, não interfere com a necessidade de realizar o seu tratamento em tempo útil. O período frio é também aquele em que o tratamento cirúrgico das varizes, nas suas diferentes variantes, é particularmente apropriado. Como sabemos o tratamento cirúrgico das varizes o membro inferior pode ser realizado em qualquer altura do ano, mas necessita no pós-operatório do uso de uma meia elástica e não permite a exposição solar dos membros inferiores para proteção das incisões cirúrgicas. Assim, embora não de forma obrigatória, o tempo mais frio é particularmente indicado para o tratamento cirúrgico das varizes dos membros inferiores pela facilidade e comodidade que proporciona ao doente no seu pós-operatório.

Em relação ao risco de desenvolvimento de uma trombose venosa profunda (que se caracteriza pela formação de um coágulo de sangue no interior da veia), está muitas vezes associado à estagnação do sangue provocada por uma menor atividade física e sedentarismo que ocorre mais no tempo frio. Assim as pessoas, sobretudo as mais idosas, saem menos de casa, têm menos atividade física no exterior, o que aumenta o risco de desenvolverem uma trombose venosa e suas complicações, nomeadamente a embolia pulmonar. Todos devem estar particularmente atentos aos sinais de alerta, nomeadamente à dor na perna associada a inchaço assimétrico da perna, e caso ocorram devem recorrer ao seu Médico para um rápido diagnóstico e tratamento. 

Em relação à doença arterial obstrutiva periférica, que ocorre mais frequentemente nos doentes mais velhos e com fatores de risco cardiovasculares associados como o tabagismo, a hipertensão arterial, o colesterol elevado e a diabetes mellitus,a época fria é particularmente atreita ao desenvolvimento de lesões tróficas (feridas) nos pés. Estas surgem porque o frio provoca uma contração dos vasos das pequenas artérias, o que associado há já existente obstrução das grandes artérias que irrigam os membros, diminui a quantidade sangue que chega aos pés. Pequenos traumatismos, que ocorrem comummente e frequentemente, levam ao desenvolvimento de feridas que devido à diminuição da quantidade de sangue que chega  aos pés, não têm capacidade de cicatrizar e põem em risco de amputação o membro inferior. Assim é necessário o diagnóstico atempado desta doença para permitir a correção da obstrução arterial através da realização de cirurgia minimamente invasiva ou através de cirurgia aberta consoante o tipo de obstrução. Destaco nesta doença os doentes diabéticos que têm um risco aumentado de desenvolvimento de feridas no pé pelo que devem estar particularmente atentos. Assim, todos os doentes com doença arterial obstrutiva conhecida ou os doentes que desenvolvem uma ferida que tem dificuldade em cicatrizar, em particular no pé, devem rapidamente recorrer a uma consulta de angiologia e cirurgia vascular para um rápido diagnóstico e tratamento adequado.

Por último, mas não menos importante, os doentes portadores de aneurisma da aorta abdominal têm um risco aumentado de rotura na época fria. Doentes do sexo masculino com mais de 65 anos, particularmente se forem ou tiveram sido fumadores, devem realizar exames (ecodoppler, ecografia aorto-ilíaca ou TAC) para efetuar o diagnóstico e, caso se aplique, definir o tratamento a efetuar. Após este estudo poderá ser colocada a necessidade de intervenção cirúrgica para minimizar o risco de rotura e morte associada.

* Rui Machado é Cirurgião Vascular no Hospital CUF Viseu. Com uma experiência de mais de 20 anos na área da Angiologia e Cirurgia Vascular, tem como áreas de eleição o tratamento endovascular e tratamento endoscópico de doenças vasculares. Realizou o Doutoramento em Ciências Médicas no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto, onde também é professor. É vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Angiologia e Cirurgia Vascular e membro da Direção do Colégio da Especialidade de Angiologia e Cirurgia Vascular da Ordem dos Médicos. Hoje, o médico partilha o seu primeiro artigo de opinião no Portal ViseuNow sobre saúde vascular no inverno.

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