ARTIGO DE OPINIÃO: Prenda de Natal (Para a minha mãe)

01/12/2021 15:30

Era uma vez uma menina que vivia numa casinha branca no cimo de um monte, com a mãe e o irmão pequenino.

A mãe trabalhava todas as tardes em casa das senhoras mais ricas da aldeia. Lavava as roupas. Passava a ferro. Varria as escadas. Encerava os soalhos de madeira. Carregava à cabeça cântaros de água da fonte para os banhos dos meninos, também eles seus patrões.

Uma dessas casas senhoriais tinha uma enorme sala com paredes recobertas de estantes de madeira carregadas de livros, meticulosamente ordenados por autores e por temas. Pelo menos duas vezes por ano, cabia à menina subir uma escada encostada às estantes e limpá-los, com um pano seco de flanela macia, fila a fila e voltar a colocá-los juntinhos. Era uma tarefa difícil para os seus braços pequenos. Contudo, era um trabalho que fazia com gosto. Na sua casa branquinha não havia livros.

Tirava um a um e, com a sua mão pequenina, não resistia a abri-los. A cheirá-los. A folhear as suas páginas, umas ilustradas, outras não. Umas com letras de tamanhos grandes e outras com letras bem pequeninas. Alguns volumes traziam, desde os títulos, um mistério à espera de ser desvendado e ela lá ficava, no alto da escada, com os livros abertos, narizinho encostado às folhas, decifrando as letras que juntava em palavras que, rapidamente, se transformavam em histórias. Lia depressa, aqui e ali. Adivinhava o que ficava por ler.

Havia livros teimosos que a chamavam, que a não deixavam mudar a escada e passar para outra fila. Irreverentes queriam sair do lugar onde sempre estiveram. Falavam. Pediam-lhe, com vozes meigas, que os não deixasse ali, alinhados e hirtos como estátuas.

Num dia de fim de agosto, a menina lá estava no cimo da escada, encostada à estante de um dos lados da parede, quando tudo aconteceu. Primeiro um, depois outro, ainda o terceiro, caíram redondinhos no chão luzidio e soltaram-se muitas das suas folhas.

Que aflição? Que faria ela? Diria alguma coisa à patroa da mãe? Iria levá-los para casa, contar à mãe o acidente ou pedir-lhe ajuda para os colar e voltar a colocá-los nos lugares certos? Meu Deus, que faria com aqueles livros?

Desceu da escada. Pegou-lhes ao colo. Os três couberam no regaço do seu avental pequeno. Sentou-se. Procurou colocar as folhas soltas de cada um nos respetivos lugares, mas elas teimavam em não ficar quietas e, mal as largava, voltavam a sair dos seus postos.

Nessa noite, não dormiu. Os títulos dos três livros apareciam-lhe sorridentes no ar. Não sabia se sonhava se delirava com febre. Ficou três dias de cama. O médico da vila, um dos senhores onde a mãe trabalhava, foi vê-la e recomendou-lhe que não saísse de casa. Precisava de descansar, de dormir muito.

A menina gesticulava. A menina falava alto. Chamava os livros pelos nomes. E eles, encantados e sorridentes, trauteavam as suas histórias, feitas canções de embalar, mas a pequena não dormia.

Na noite do terceiro dia, alguém bateu à porta. Era um mendigo. Pedia “Pão por Deus”.

A mãe mandou-o entrar e sentou-o à mesa. Comeria a sopa com eles. Contou-lhe que a filha estava doente. Uma doença estranha. Não comia e falava sozinha e dizia palavras misteriosas que pareciam contos de encantar. O velho sorriu. Comeu a tigela da sopa. Agradeceu. Pediu se podia visitar a enferma. A mãe autorizou-o. O pequenino segui-lhes os passos. O homem benzeu-se e entregou à menina um saco de pano branco. Dentro, tinha três livros. A menina sorriu e agradeceu. A mãe não sabia o que fazer. O homem saiu e partiu pelo caminho abaixo com uma lanterna na mão.

A menina dormiu, enfim, descansada.

O tempo foi passando. Em outubro as aulas recomeçaram. A menina foi-se esquecendo desta aventura que, muitas vezes, lhe parecia irreal. Teria sido da febre?

Na véspera daquele Natal, a mãe descascou as batatas, cortou os talos mais novos das couves, apanhadas na horta, arranjou duas postas de bacalhau e pôs tudo a cozer na panela de ferro preto, que já chiava na lareira.

Jantaram os três. Comeram as rabanadas. O arroz doce ficaria para o dia seguinte. Estavam cansados. Fizeram os pedidos ao menino Jesus, colocaram os sapatinhos junto à cheminé e deitaram-se.

De manhã cedinho, mal o galo anunciou o dia, a mãe levantou-se, devagarinho, para colocar os chocolates que tinha comprado paras os filhos, nos seus sapatinhos.

Junto à lareira, sobre os banquinhos de madeira, estavam três embrulhos dourados com fitas vermelhas. Um livro para cada um! A mãe ajoelhou-se e rezou.

Foram esses os primeiros livros daquela casa e da sua biblioteca, que é hoje enorme.

E agora, num ritual mágico, todos os anos, ela, que já deixou de ser menina, oferece livros, como prenda Natal, aos filhos e aos amigos.

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