ARTIGO DE OPINIÃO: Destas terras de Aquilino somos todos nós.

03/11/2021 18:30

A primeira vez que ouvi falar de Aquilino Ribeiro foi pela voz de um dos meus mestres: o Dr. João Mendes. O nosso professor de português, no antigo Externato de Sátão, lia-nos O Malhadinhas e nós, em silêncio, víamos entrar, de rompante, uma figura rústica, matreira, um almocreve das serras do demo, com o seu pau pronto a atuar, “um rico pau de marmeleiro com a choupa e a ponteira a luzir …quando não era faca afiada….”.

Ora o encontrávamos nas feiras de Lamas ou do Ladário ou na romaria do Senhor dos Caminhos, ora nas curvas e encruzilhadas mais escusas de caminhos de pó, pedra ou tojos, que cobriam as terras e os montes.

Eram terras difíceis de cultivar, negras da cor da fome, douradas no verão pelo ouro da carqueja, mas onde uivavam lobos famintos, nos invernos de noites longas e medonhas. (Se és homem ó Malhadas, vem à feira de Lamas na quinzena… _ Pois não faltes que eu não falto. Nem que o diabo dê estoiro… Hoje abalo para o Senhor dos Caminhos e ou o Tenente da Cruz me mata ou eu o mato…”)

Ao longo da minha vida docente, foram bastantes as vezes que participei na organização de concursos de leitura, de palestras, exposições e romagens às terras do Demo. Tudo isto para dizer-vos que Aquilino está há muitos anos na minha geografia sentimental. Tudo isto para dizer-vos, afinal, que Aquilino sempre esteve na geografia sentimental dos que se orgulham de pertencer, também eles, às “terras do demo”, porque Aquilino as eternizou com este nome. Um conjunto de terras que não podemos delimitar sem nela incluirmos, obrigatoriamente, as terras de Sátão

Sabemos o que os municípios de Sernancelhe, Moimenta da Beira, Vila Nova de Paiva e Viseu têm feito para gravar a memória do escritor. Mas será de total injustiça que o Sátão nada faça e ignore o quanto os seus textos falam da nossa matriz.

Tomemos como exemplo o livro Geografia Sentimental (1951). Dir-vos-ei que seria uma bela homenagem a festa da reedição deste livro no alto do monte, no Convento da Fraga, sob o olhar de Frei Joaquim de Santa Rosa Viterbo que Aquilino exalta como mestre, dedicando-lhe todo um capítulo desta obra, aparecendo também noutras como O homem que matou o diabo. Um desafio para os autarcas.

Os escritores precisam que nós os leiamos e não façamos deles bustos ou estátuas paradas no tempo e, por isso, o melhor que podemos fazer é não deixar que a sua obra fique esquecida nas prateleiras de bibliotecas-armazéns ou de cemitérios de livros virtuais que ninguém lê. O melhor a fazer é continuar a promover iniciativas que os lembrem e leiam, dando voz às suas palavras imorredouras, levando outros a querer lê-los.

Por isso, quero ler convosco algumas das mais brilhantes linhas algum dia escritas sobre Frei Joaquim de Santa Rosa Rosa de Viterbo, figura que hoje dá nome à escola secundária e cuja obra ímpar, o Elucidário (1798) é, pela sua importância cultural, um dos ícones do logótipo do atual Agrupamento de Escolas de Sátão.

“À altura da Fraga, quando o Verão é rigoroso, o Vouga quase seca. Por essa época, se Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo assomasse à janela do seu cenóbio, veria as rolas descerem em voo pairado a dessendentar-se nas pocinhas de água ou sob a raiz dos amieiros à boca das acolheitas. Do varão douto, que deixou o Elucidário, tombo raro da língua, não se sabe onde param as cinzas, e o conventinho da Fraga, por malefício dos homens e o estrago do tempo, não passa de misérrima ruína a esboroar-se. […]

Quanto lhe devo, não o sei eu dizer. Que mais não seja o Elucidário, além de me abrir uma larga janela para o passado, explicou-me, como um cicerone de museu, a antiga província da Beira. Sim, o grande serviço foi esse: acender a luz no sótão das coisas velhas, desusadas, arcaicas, e poder revê-las eu em sua estrutura original, inertes agora de todo ou mais que purulentas e desconjuntadas. […]

Concluindo, destas terras de Aquilino somos todos nós. Faz sentido que este vasto território granítico, serpenteado pelo Vouga, colha a atenção cuidada dos vários municípios que, numa perspetiva cada vez mais necessária de trabalho em rede, congreguem vontades e saberes na elaboração de uma agenda cultural intermunicipal que, sob a égide da obra literária de Aquilino Ribeiro, como nosso património comum, a todos beneficie e envaideça, sem pruridos ou aproveitamentos de natureza ideológica ou outra.

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