ARTIGO DE OPINIÃO: Não é desse verde nem é desse azul

16/06/2021 19:30

Antes de editadas em volume, em 1846, as Viagens na Minha Terra foram publicadas em números sucessivos na Revista Universal Lisbonense, como folhetins; tendo sido a publicação das Viagens interrompida após a saída, em 1843, dos seus capítulos iniciais, foi retomada dois anos depois, em 26 de junho de 1845, começando precisamente por republicar esses capítulos, entretanto revistos pelo autor. 

A história da menina dos rouxinóis foi contada pela primeira vez em 28 de agosto de 1845. Na página 114 da 10.ª edição do tomo V da Revista Universal Lisbonense, por entre informações sobre caminhos de ferro e curiosidades sobre o mês de setembro, a imaginação de Garrett abre uma janela encantada que não mais se fechará e através da qual conhecemos uma das figuras femininas mais fascinantes da nossa literatura: Joaninha de olhos verdes, «verdes como duas esmeraldas orientaes, transparentes, brilhantes, sem preço.»

Os olhos de Joaninha reforçam a sua excecionalidade, da qual o narrador tenta dar conta através da negação, recurso que usa para lhe descrever e sublimar a cor: «Os olhos de Joaninha eram verdes… não d’aquelle verde descorado e traidor da raça felina, não daquele verde mau e distingido que não é senão azul imperfeito, não; eram verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido quilate.» O narrador quer deixar claro que não há olhos iguais a estes; ao negar quaisquer semelhanças com quaisquer outros olhos verdes, o narrador afirma a sua singularidade e raridade, deixando perceber que, se os olhos são a janela da alma, singular e rara é também a alma de Joaninha, que acaba traída pela sua pureza. A ideia de que «olhos verdes são traição», como canta Francisco José, cai por terra.

Em Levantado do Chão, também a excecionalidade da personagem João Mau-Tempo se reflete nos seus olhos azuis, incompreendidos num universo de «olhos escuros, castanhos». Quando lhe nasce a neta, Maria Adelaide, que do avô herda os olhos azuis, igualmente Saramago se revela herdeiro de Garrett ao usar a negação para caracterizar os olhos da menina: «duas gotas de água banhadas de céu, duas pétalas redondas de hortense, mas nenhuma destas vulgares comparações serve, é o dizer de quem não sabe inventar melhor, nenhuma comparação há de servir, ainda que no exercício delas se esforcem os namorados da dona destes olhos, que são azuis, não aguados nem celestes, nem de capricho botânico, nem de forja subterrânea, azuis intensos e brilhantes». 

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