O estudo etimológico da palavra exílio não é consensual. Uns atribuem-lhe a origem em exsul, vocábulo que estaria ligado a solum. Outros, teoria mais aceite, preferem encontrá-la no radical el (ir) existente também em celta e que esteve na raiz de ambulo. Na língua portuguesa, entrou por via do latim ex(s)iliu. Estas aceções do termo têm, contudo, em comum, a ideia de deslocação de um espaço habitual para outro.
Esta palavra engloba realidades diversas: o desterro, o degredo, a emigração, o êxodo, a proscrição, a expatriação, o lugar do exílio, os sentimentos associados à ausência (solidão, saudade, nostalgia…), a incompreensão, a errância inerente ao homem, a demanda do ser. O homem como peregrino na terra é uma imagem típica da tradição ocidental, desde o Génesis, com a expulsão do homem do Éden.
A criação literária de todos os tempos tem feito eco deste e de outros mitos: a expulsão dos anjos rebeldes para o inferno, a dos Gigantes para o Tártaro, o voo de Dédalo, o peregrinar de Édipo, o êxodo bíblico, a diáspora dos judeus, as viagens de Ulisses e Eneias, a jornada de Dante, as aventuras de Robinson Crusoe são apenas alguns exemplos que ilustram metaforicamente os vários exílios a que o homem tem sido votado, quer por circunstâncias epocais, quer por razões inerentes à sua condição de ser inquieto, em eterna busca.
O exilado é um ser dividido: habita um espaço, mas lembra ou projeta outro. É um ser que se debate entre a rejeição e a tolerância, entre a incompreensão e o isolamento. É um ser duplo que vive um conflito de identidade e, por isso, muitos encontraram e encontram na escrita o único remédio.
Na História da Literatura, o tema do exílio, na ambiguidade das suas inúmeras aceções, tem contornos muito antigos e universais.
Relembremos, a título exemplificativo, a Bíblia, o desterro babilónico de que o Salmo 136 é uma das melhores expressões poéticas de todos os tempos. Evoquemos Ulisses, herói homérico, e a sua peregrinação até reencontrar a Ítaca natal. Não esqueçamos Ovídio, o poeta desterrado para os confins do Império. Um e outro, paradigmas da literatura de exílio.
Depois deles uma miríade de poetas, quantos deles anónimos, da China ao Mediterrâneo, procuraram e procuram no seu canto o reconforto e a paz possível para o exilado. Recordemos Dante, Victor Hugo, Rafael Alberti, Bertolt Brecht, Paul Celan, Pablo Neruda, Léopold Senghor, e tantos outros.
Percorrendo, brevemente, a História da Literatura Portuguesa, verificamos que uma parte significativa da nossa literatura é marcada pela ausência, pela errância, pela viagem e pelos sentimentos a ela ligados, filão inexaurível da nossa língua.
Na Idade Média, a poesia cultivada é a da separação, da distância e da saudade, sentimento que nos acompanha de forma quase mítica; no Cancioneiro Geral, onde é retomado frequentemente o tema da partida; em Bernardim Ribeiro, na sua Menina e Moça e também nas Éclogas; em Sá de Miranda e em poetas novilatinos como André de Resende e Diogo Pires, para quem o apego à terra-mãe é superior aos sentimentos cosmopolitas, próprios da época.
Encontramo-lo em Camões, o poeta desterrado da pátria e na pátria, o protótipo do exilado. As suas composições poéticas patenteiam, inúmeras vezes, a nostalgia e as contradições do homem que vive e sofre exílios vários: a elegia “O sulmonense Ovídio, desterrado”, a canção IX (“Junto de um seco, fero e estéril monte”), a X (“Vinde cá, meu tão certo secretário”), ou as redondilhas “Sôbolos rios que vão” são disso exemplo.
Lembremos Fernão Mendes Pinto, o peregrino sem par, e a lista poderia acrescentar-se mais e mais, passando por outros períodos da nossa História, desde a Inquisição à Ditadura. Refiramos, no entanto, alguns poetas que deixaram os seus nomes indubitavelmente ligados à história do exílio português: Filinto Elísio, o Cavaleiro de Oliveira, a Marquesa de Alorna, para não falarmos dos diplomatas, cientistas e intelectuais que, de fora, sempre contribuíram para a renovação do pensamento em Portugal.
Detenhamo-nos no séc. XIX, que vem trazer um tom ainda mais dramático à literatura de ausência. Almeida Garrett, no seu Frei Luís de Sousa, ou ainda antes, com Dona Branca e Camões, introdutor do Romantismo em Portugal, texto escrito à sombra do exílio, sobre um fundo de saudade, que reelege a figura do poeta desterrado e exacerba a saudade como sentimento nacional, por excelência. Na mesma época, também vítima de desterro ideológico, Herculano compôs as Tristezas do Desterro.
Continuando neste século, a Geração de 70, que, vivendo um certo exílio interior, procurou fora do país a sua renovação cultural: Oliveira Martins, Antero de Quental e Eça de Queirós.
Ainda Cesário Verde, o exilado na cidade que o sufoca e oprime, desejando a constante evasão no campo. E Camilo Pessanha, exilado ao som da flauta, no Oriente longínquo; António Nobre, o “Lusíada exilado” e Só; Mário de Sá Carneiro, que se suicida em Paris, e Fernando Pessoa, o exilado no tempo, o da errância sem fim, viajando no sentir e no pensar do ortónimo ou dos heterónimos.
Poetas portugueses do nosso tempo continuam a dar voz a este tema, nas suas múltiplas facetas. A presença do apego às raízes e a dificuldade em viver longe delas continuam a ecoar, de modo singular, na poesia portuguesa.
















