ARTIGO DE OPINIÃO: “A arte é tudo. Tudo o resto é nada”

27/04/2021 21:00

“A arte é tudo – tudo o resto é nada. (…) Tudo é efémero e oco nas sociedades – sobretudo o que nelas mais nos deslumbra. Podes-me tu dizer quem foram, no tempo de Shakespeare, os grandes banqueiros e as formosas mulheres? Onde estão os sacos de ouro deles e o rolar do seu luxo? Onde estão os olhos claros delas? Onde estão as rosas de York que floriram então? Mas Shakespeare está realmente tão vivo como quando, no estreito tablado do Globe, ele dependurava a lanterna que devia ser a Lua, triste e amorosamente invocada, alumiando o jardim dos Capuletos. ”Assim escrevia Eça de Queirós in Prefácio de «Azulejos» do Conde de Arnoso.

Para que serve a arte? Perguntam alguns. Para que serve a música, a literatura, o teatro, a dança, as artes plásticas, o cinema? Murmuram outros.

Arte é uma palavra que deriva do vocábulo latino arse que significa técnica ou habilidade.Capacidade para fazer nascer, para fazer acontecer. O ser humano desde sempre sentiu uma vontade intrínseca de criar e a criação artística revela o impulso de expressar aquilo que de mais genuíno existe em si. Quando na Pré-história ele emergiu da escuridão, viu bichos, viu plantas, águas e estrelas, e de tão maravilhado ficou que, em momentos de inspiração, os reproduziu nas grutas e nas cavernas. A partir de então, a história da arte é uma jornada evolutiva, a construção de uma narrativa onde o homem é um criador de símbolos, através dos quais expressa o que percebe e apreende do mundo, em todo o tempo e em todo o lugar. E num mundo onde parece que tudo tem de acontecer no imediato e onde sentimos não existir tempo para a contemplação, urge sermos ainda mais sensíveis e mais criativos.

Reconhecer a arte é estar consciente da vida em si mesma. Reconhecer a vida enquanto criação que nos transforma e que nos eleva. A arte não é produto do corpo. A arte não é produto do espírito. Nasce sim da dupla dimensão humana. E aos que questionam e murmuram, eu reitero que pela vivência estética, o homem transcende a materialidade, eleva-se a um plano espiritual, pois a arte desperta a sensibilidade humana e permite a expressão de emoções e o pensamento crítico. Aquilo que nos faz mais humanos é a capacidade de nos impressionarmos pelo belo – pela arte. Mas se o homem é naturalmente um ser criador, ele é também o fruto. O fruto da mãe Terra, a Natureza. No fresco orvalho da manhã, na teia laboriosa da aranha, no choroso regato de água, nas douradas searas, bailarinas de Zéfiro, contemplamos a primordial forma de arte. Do vento se faz música e na seara nasce a cor da tela. A criação suprema da natureza inventou a beleza. Assim, a arte faz-se sentir na vida como uma brisa ou uma tempestade, espontânea, despida, livre, intensa e o seu sopro aconchega-nos e estremece-nos.

Despertos para a arte, esteja esta onde estiver, seja ela girassol ou estátua de Apolo, pavão ou nota musical, seara ondulante ou rond de jambe, sintamos como o mestre Caeiro que “os (…) pensamentos são todos sensações, (…) pensar uma flor é vê-la e cheirá-la e comer um fruto é saber-lhe o sentido”.

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