Em 11 de março de 2020 a Organização Mundial da Saúde decretou o surto da COVID 19 como pandemia mundial e tudo mudou num “click” de incredibilidade perante os factos. Um pouco por todo o país, sucedem-se cancelamentos de vários eventos, 60% das reservas dos hotéis são anuladas, dando início à maior quebra no setor do turismo e da restauração alguma vez sentida. A partir daí os acontecimentos desenrolaram-se a um ritmo alucinante, decretando-se a 18 de março de 2020 o 1º estado de emergência da democracia portuguesa. Seguiu-se o 1º confinamento e após a curva descer respirámos de alívio e relaxámos perante o inimigo desconhecido. A nossa vontade de recuperar as nossas rotinas era tanta, que subestimámos com falso otimismo a verdadeira realidade numa ausência de estratégias bem definidas. Com o outono, a situação agravou-se e surge uma 2ª vaga. Com o Natal uma 3ª, atingindo um pico de 16 500 casos e 300 mortes num só dia. Realidade assustadora essa, em que os números não paravam de crescer e a impotência de uma perspetiva de controle empalidecia os nossos rostos. O país entra em choque, quase à beira da rutura sendo considerado um dos mais afetados do mundo pela COVID 19. Passámos do “8 para o 80”, de exemplo para a deceção, numa escalada abrupta, que só agora, com todas as medidas extraordinárias, com o esforço heroico e extenuante dos agentes de saúde e com o plano de vacinação em curso, começa a atenuar. Em apenas um ano, o que inicialmente era uma crise de saúde publica, rapidamente se transformou num desastre económico e social sem precedentes, levando o FMI a dizer que 2020 ficará marcado por uma recessão global tão má ou pior do que a crise financeira iniciada em 2008. Sabemos que a recuperação vai ser lenta e que será necessário um trabalho concertado entre os vários agentes económicos.
Para os governantes, digo que, o grande desafio é não sucumbir ao individualismo partidário, mas sim agregar esforços como um todo, por forma a estabelecer planos realistas, exequíveis e bem definidos. É fundamental a cooperação alinhada de todos os intervenientes defendendo o interesse coletivo, pois só assim teremos uma recuperação mais rápida e eficaz.
Vivemos tempos de grande ansiedade, onde paira sobre nós o medo e a incerteza de um futuro promissor, de um desfecho que nunca mais acontece e do impacto que isso possa ter nas nossas vidas. Estados de emergência, confinamentos, recolheres obrigatórios, limites à circulação, suspensão de tráfego aéreo, visitas a hospitais e lares condicionadas, suspensão de missas, catequeses, funerais, concertos, festivais, proibições e obrigações. Tudo isso mudou o nosso paradigma, a nossa liberdade foi tolhida e as nossas rotinas alteradas drasticamente, tivemos de nos adaptar a esta nova realidade e ao momento que atravessamos. Reajustámos os nossos dias, as nossas tarefas, incorporámos o teletrabalho, as aulas online, as vídeo chamadas, os Webinars, cozinhámos mais, conduzimos menos, adotámos um “dress code” mais prático. Aprendemos a gerir a nossa ansiedade, a cultivar a paciência para suportar o que está fora do nosso controle, aprendemos a alinhar as nossas emoções e a reequacionar as nossas prioridades.
Acima de tudo acredito que, com tudo isto, tivemos a oportunidade de crescer e aprender a dar o valor real às coisas e às pessoas. Creio que nunca valorizámos tanto a saúde, a família, o convívio, as manifestações de afeto, a segurança de ter um trabalho, as caminhadas ao ar livre e até o simples ato de respirar. Conceitos que, para nós eram dados como adquiridos, passaram a ser agora privilégios inestimáveis. Numa sociedade extremamente consumista, e que vive a vida no imediato é importante que aconteça esta valorização de princípios intrínsecos e básicos do ser humano, muitos deles secundarizados e esquecidos por cada um de nós. Que cresça o desejo de superação, e a esperança num futuro onde todos nós tenhamos a palavra e sejamos responsáveis uns pelos outros.
















