Quando se fala em rotura das urgências hospitalares, do encerramento de serviços clínicos e dos custos elevados no Serviço Nacional de Saúde, a culpa é quase automaticamente atribuída aos médicos tarefeiros, vistos como profissionais “caros”, “oportunistas” e pouco comprometidos com o sistema público. Mas será que esta narrativa explica a realidade?
Um médico tarefeiro é um médico contratado pela instituição de saúde para prestar cuidados em serviços com falta de médicos residentes. O médico tarefeiro não tem vínculo estável à instituição, não integra equipas fixas e não participa na gestão do serviço. É chamado porque os médicos do quadro não têm disponibilidade para assegurar a prestação de cuidados, ou seja, quando o sistema falha.
Estes médicos são vistos como “vilões” por vários motivos:
• O custo, já que o valor pago a um médico tarefeiro é superior ao valor/hora de um médico do quadro. Apesar de parecer um ultraje, é importante ter em conta que o médico tarefeiro não tem estabilidade, carreira nem direitos associados.
• A ideia de falta de compromisso porque o médico tarefeiro entra, desempenha as suas funções naquele turno e sai, criando a perceção de que “não quer saber do serviço”. Na realidade, este médico foi contratado para prestar cuidados e evitar o encerramento do serviço naquele período, e não para integrar o serviço.
• A necessidade de encontrar um “culpado” para as falhas estruturais na gestão de recursos humanos, sendo mais fácil apontar o dedo a quem recebe mais por turno.
Não obstante as críticas, os hospitais precisam destes médicos para funcionar porque o SNS não está a oferecer aos seus médicos condições de trabalho dignas, carreiras atrativas e horários sustentáveis. Muitos médicos tarefeiros são, ou foram, médicos do SNS que saíram porque não toleraram as condições, mas continuam a garantir o funcionamento do sistema de forma precária, garantido que muitas urgências não fecham, que alguns serviços continuam abertos e que as escalas conseguem ser preenchidas.
É evidente que o uso excessivo destes profissionais sai caro ao Estado, não porque os médicos tarefeiros são gananciosos, mas porque o sistema tem falhado na retenção dos seus próprios médicos através de salários pouco competitivos, carreiras bloqueadas, excesso de trabalho e falta de planeamento a longo prazo.
Na prática, os médicos tarefeiros não são a causa do problema, mas sim um sintoma de um sistema que deixou de conseguir funcionar apenas com médicos em regime permanente no SNS. Enquanto esta narrativa se mantiver, o sistema continuará a tratar os sintomas sem nunca curar a doença, com todos os envolvidos a perder.















