ARTIGO DE OPINIÃO: 1177 a.C. O ano em que a civilização colapsou

29/03/2023 19:30

Desde muito jovem (ainda criança) que os mistérios e as maravilhas da História dos Povos me fascinavam, eu procurando avidamente nos livros e nos jornais as respostas para algumas questões que a Escola ainda não contemplava. E os enigmas das civilizações, os segredos e as tragédias ou os rituais mais particulares despertavam emoções reativas. Assim comecei a organizar a minha primeira biblioteca, enriquecida com uma coleção (a minha primeira enciclopédia) intitulada “Cultura Geral”, uma prenda de aniversário por bons resultados no final do Ensino Básico. Este fascínio foi em muito responsável pelo meu percurso profissional depois, levando-me à inscrição no Curso de História (Variante de Arqueologia e História da Arte). Depois sucederam-se as campanhas arqueológicas, a descoberta dos Mitos e das reviravoltas das Grandes Civilizações da Antiguidade.

Recentemente surgiu esta obra da qual vos falo hoje, e que me encontro ainda a ler, uma obra como um autêntico Museu da Antiguidade em folhas de papel, enunciados e relatos das maiores descobertas arqueológicas para a compreensão da evolução, ascensão e decadência das antigas civilizações do Egeu e do próximo e Médio Oriente. 

O ano de 1177 a. C. foi um ponto de viragem para o mundo antigo. Grupos conhecidos como Povos do Mar invadiram o Egito. O exército e a marinha dos faraós conseguiram vencê-los, mas a vitória enfraqueceu o território, que depressa entrou em declínio, arrastando consigo as civilizações vizinhas.

Depois de séculos de uma extraordinária evolução cultural e tecnológica, as regiões mediterrânicas conheceram uma paragem abrupta. Grandes impérios e pequenos reinos colapsaram subitamente. Mas, sozinhos, os Povos do Mar não poderiam ter causado um colapso tão generalizado. O que foi, então, que aconteceu?

Apesar de a distância que nos separa destas civilizações ser superior a três milénios, são maiores os paralelismos do que se possa pensar à partida: embargos económicos, intrigas internacionais, desinformação militar deliberada, rebeliões, migrações e alterações climáticas.

E se estivermos apenas no início de uma nova tempestade perfeita de fatores de stress nas nossas sociedades? Haverá mais eventos cataclísmicos a caminho? Teremos resistência suficiente para ultrapassar o mais que nos for atirado ou caminhamos para o colapso dos múltiplos elementos que compõem a nossa complexa sociedade global?

O melhor desta obra é a imagem surpreendentemente reconhecível de uma época muito distante, mas estranhamente muito próxima de nós e do nosso tempo em semelhanças e coincidências conjunturais, como sejam as guerras culturais e tecnológicas (indústria de armamento; guerras da comunicação e das redes sociais; guerras entre grandes grupos líderes dos circuitos da comunicação), guerras económicas (oriente contra ocidente; crises financeiras), ou as guerras políticas pela posse e administração de territórios ricos em matérias-primas (Rússia invade a Ucrânia). Os desafios que hoje enfrentamos realmente, não nos parecem assim tão novos, apenas renovados para uma outra era moderna, não se repetindo a História mas reconhecendo-se e renovando-se as circunstâncias conjunturais e civilizacionais ameaçadoras da evolução das civilizações. 

A obra concentra-se numa pesquisa científica excelente e concisa, através de uma Bibliografia de centenas de outras obras científicas, em redor dos principais reinos e civilizações da época (Idade do Bronze), a partir de antigos e recentes desenvolvimentos arqueológicos, explorando uma vasta narrativa de variáveis civilizacionais que podem ter conduzido a farturas das sociedades da época, de origem cultural ou política, económica ou militar, em articulação com calamidades como terramotos ou fomes, períodos de seca extrema e guerras, pragas e epidemias (analogia aos tempos que hoje vivemos). Um tempo e um espaço em que as rotas comerciais desmoronaram, as maiores cidades arderam, a alfabetização quase foi extinta, e apenas algumas cidades escaparam a um verdadeiro apocalipse e sobreviveram. O autor usa um enquadramento brilhante, articulando os problemas financeiros na Grécia com a violência dos povos ao longo do Mediterrâneo Oriental, uma conjuntura de colapso tanto há mais de 3.000 anos quanto hoje parece repetir-se.

O autor, Eric H. Cline, é professor universitário, diretor do Instituto Arqueológico do Capitólio e ex-presidente do Departamento de Línguas e Civilizações Clássicas e do Próximo Oriente na Universidade George Washington, nos EUA. Cline é ainda colaborador regular da National Geographic. Os seus trabalhos de investigação já lhe mereceram inúmeros prémios, como  O PRÉMIO de MELHOR LIVRO DE HISTÓRIA da American Schools of Oriental Research. 

Por todas estas razões se aconselha a leitura e acompanhamento atento desta narrativa histórica (bem sustentada em múltiplos documentos e achados arqueológicos), para melhor compreendermos os tempos conturbados que vivemos, através da compreensão do trágico desenlace de uma das civilizações mais gloriosas da Antiguidade Histórica. 

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *