ARTIGO DE OPINIÃO: Misericórdia, Lídia Jorge, 2022

04/01/2023 18:30

Lídia Jorge é uma escritora notável. O seu último romance é a confirmação do que já sabíamos acerca da sua escrita límpida sobre o quotidiano de pessoas que nem sempre, ou quase nunca, são bafejadas pela sorte. Retratos de um mundo paradoxal com vidas em contramão. Romances que não têm um final feliz.

Misericórdia. Foi o título que despertou, de imediato, a minha vontade de ler este seu último livro. O meu filho publicou este ano o seu primeiro álbum musical, constituído por uma série de composições originais, gravadas no órgão de tubos da Igreja da Misericórdia de Viseu. Deu-lhe o nome de Misericórdia. Coincidências. Todos conhecemos a benevolência da amplitude semântica deste termo.    

A narrativa trata da vida de uma idosa durante o último ano da sua vida numa residência para a terceira idade, construída a partir da conversão de um hotel: o Hotel Paraíso. Nome fictício, mas ao qual se associa, por um lado, o simbolismo de um lugar de bem-estar e de felicidade, o céu e, por outro, nele se antevê a ironia, pois todos sabemos, mais ou menos, que as instituições com este fim não são habitualmente vistas como paraísos. 

Dona Maria Alberta Nunes Amado é uma aristocrata que decide instalar-se nesta residência. Note-se que não lhe chamamos lar.  Desde que sentiu o peso da sua incapacidade física para cuidar de si, decidiu instalar-se neste hotel de cinco estrelas ou de pelo menos quatro. Como não consegue ler como lia antes e escrever a sua história, já não tem força para segurar as canetas, os papéis e os livros, nas suas mãos cada vez mais débeis, tem um pequeno bloco de folhas brancas A8, onde vai escrevendo, a custo, com um lápis pequeno, pequenas frases, pequenas notas, pequenos versos. Além disso, tem um gravador para o qual vai falando. Os seus relatos perfazem trinta e oito horas de gravação. São estes dois instrumentos que servirão de base para a construção do romance que a filha, Lídia Jorge, por encomenda da mãe, Maria dos Remédios, escreverá. São deliciosos os diálogos da idosa com a filha, com a qual procura manter uma relação de autoridade maternal, aconselhando-a escrever livros mais felizes para que tenham sucesso editorial. Diálogos onde prevemos o cruzamento entre a realidade e a ficção.

Trata-se do relato dos acontecimentos que vão decorrendo naquele lugar, vistos por quem os vive. Das rotinas diárias pautadas pelas horas da higiene, das refeições e da medicação, do levantar e do deitar.  A protagonista mantém uma lucidez que aproveita para nos dar conta das suas emoções, das visitas de fantasmas nas insónias que a ameaçam nas noites sem fim. Revela-nos os comportamentos de personagens que, como ela, se submetem ao curso dos dias, muitas vezes vazios de sentido.  Dá-nos o testemunho das rivalidades entre os utentes, das paixões, dos ciúmes, dos arrufos, das conversas sobre o passado, da perceção que têm da vida lá fora, da outra vida, a que assistem sentados nos cadeirões ou nas cadeiras de rodas, as “charretes” como a sua, alinhadas no grande Salão Rosa, frente a uma televisão que os adormece e anestesia. Mostra-nos o que eles pensam sobre os filhos. Revela-nos as suas forças e as suas fraquezas. As suas vontades de morrer. As suas vontades e tentativas de fugirem dali.

Nos dias de festividades e horas destinadas às visitas há interrupções ao calendário dos outros dias que mal se distinguem. Vestem-nos com os melhores fatos. Penteiam-nos com mais cuidados. Perfumam-nos.  Não, neste livro, não assistimos apenas a episódios tristes, alguns motivados por comportamentos de falsos tratadores, pois os maltratam na sua dignidade humana, carregando-os como fardos, ou olhando-os como crianças, animando-os com festinhas e animações infantis, esquecendo-se das suas histórias de vida cheias de experiências e sabedoria. Assistimos, de igual modo, a atos de humanidade e amor por parte de outros que deles cuidam delicadamente, os acarinham como se fossem seus, que os respeitam. Em todos os lados da vida há os dois grupos. 

Neste romance, encontramos ainda as experiências vividas nesta instituição assolada pela pandemia num período temporal que todos vivemos. Vemos as dificuldades por que passaram estes reclusos, nestes dias de cerco, que viam os seus através de janelas, acenando ao longe. 

De uma forma brilhante, Lídia Jorge leva-nos a uma reflexão aprofundada sobre aquilo que nos espera, a uma tomada de consciência sobre a inutilidade da vida a partir do momento em que deixamos de servir para uma sociedade que valoriza o trabalho, o rendimento acelerado, o materialismo desenfreado, a ascensão social alucinada, sem tempo para viver e para amar. 

Não é fácil ler um livro como este, que nos coloca questões, que nos interpela, que nos provoca, que nos desafia. Trata-se de um exercício de leitura de uma beleza cruel. Faz-nos parar e indagar o sentido justo da vida. 

Misericórdia!

Ana Albuquerque Misericórdia, Lídia Jorge, 2022

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