ARTIGO DE OPINIÃO: MENINA BAUDELAIRE – YSLAIRE (Edição Ala dos Livros 2023)

26/07/2023 18:16

Regresso à Banda Desenhada para vos propor a leitura (e preservação deste tesouro artístico) , uma obra admirável recentemente editada pela ALA dos LIVROS. Sinónimo de qualidade, escolha rigorosa dos originais, edições de luxo. Falamos da editora ALA DOS LIVROS, um dos mais recentes trabalhos editados (2023), um álbum de excelência artística e estética.

Intitula-se “Menina Baudelaire”, ilustrada magistralmente por YSLAIRE, e começa a sua apresentação a partir de uma carta reveladora –

“Senhora Aupick,
A vós, que me perguntais quem sou, posso dizê-lo. Mas, correndo o risco de parecer orgulhosa, nenhum leitor de ‘As Flores do Mal´ esquecerá a Vénus negra de Charles Baudelaire, a musa imoral, amaldiçoada, do maior dos poetas malditos. Sim, sou eu, a bela tenebrosa, a cara indolente, que caminha a compasso, bela de requebros, como uma serpente que dança…”

Jeanne Duval foi a narradora escolhida por Yslaire para, através de uma carta imaginada, nos fazer mergulhar no percurso da vida de Charles Baudelaire – um dos escritores franceses mais importantes do século XIX e um dos percursores do simbolismo – e na relação deste com a sua musa inspiradora.

De Jeanne, a mulher que o poeta mais amou e mais amaldiçoou, quase nada se sabe: as datas do seu nascimento e morte são incertas, tal como incerto é o seu apelido, ou até mesmo a sua origem – provavelmente crioula. Resta uma foto de Nadar não autenticada, retratos desenhados por Baudelaire, e sobretudo os poemas que ela lhe inspirou. A carta que Jeanne, a «Vénus negra», escreve à mãe do poeta é, pois, o ponto de partida escolhido por Bernard Yslaire para levar o leitor a descobrir uma relação complexa e apaixonada, dura e sensual, destrutiva e luminosa, de amor e de ódio.

Com Menina Baudelaire, que a Ala dos Livros agora apresenta em edição portuguesa, Bernard Yslaire assina a sua obra-prima da maturidade. Um belíssimo álbum, destinado a quem admira e degusta uma audaciosa obra de BD como objeto artístico.

Bernard Hislaire naaceu em 1957 em Bruxelas. Argumentista e desenhador, inicia-se muito jovem na banda desenhada, no fanzine Robidul. Colaborado na revista Spirou a partir de 1975, é para este semanário que, em 1978, assina “Bidouille et Violette”, uma série em 4 volumes que, ao narrar as histórias de dois adolescentes, se tornaria a primeira história de amor “melancómica” da BD franco-belga. Em 1985 muda completamente de registo gráfico, passa a usar o pseudónimo Yslaire, e cria, com Balac (alias Yann), “Sambre”, uma saga romântica. Em 2021, Yslaire regressa à editora Dupuis onde assina este álbum memorável soberbamente desenhado e narrado: Menina Baudelaire (Mademoiselle Baudelaire, no original), no qual nos conta a história de amor frustrado entre o poeta Charles Baudelaire e sua amante Jeanne Duval, conhecida como a “Vênus Negra”.

A obra é ao mesmo tempo uma viagem de revisitação à obra literária de Baudelaire (poeta e teórico de arte francesa, considerado um dos precursores do simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora se tenha relacionado com diversas escolas artísticas), e uma viagem ilustrativa a um tempo de mudanças culturais importantes no panorama da arte e da literatura europeia, uma visita guiada de forma magistral pela arte de Yslaire a uma Paris em sucessivas revoluções politicas e sociais de fundo. Profundamente erótica, documentalmente impressionante, tecnicamente irreverente, artisticamente entre um barroquismo solto e um romantismo tormentoso, esta obra merece muitos elogios, mas sobretudo que seja lida e apreciada e depois maravilhosamente exposta num espaço privilegiado em cada biblioteca social ou familiar. A não perder, mesmo!

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