ARTIGO DE OPINIÃO: Carta para Lobo Antunes

07/12/2022 18:30

Boa noite, António!

Acabei de ler o seu último romance O Tamanho do mundo.  Li-o em dois dias! O meu irmão voltou ao bom hábito de me oferecer um livro seu pelo meu aniversário. Alguns deles, é bem verdade, não consegui lê-los de uma vez, nem de duas, nem de três.

Há nos seus livros estradas, muitas estradas que se cruzam, muitas pessoas que se baralham e nos baralham no tempo e nas vidas, muitas personagens que todos nós conhecemos, muitas máscaras que são os nossos rostos de solidão e de vazio, muitos retratos da nossa mísera condição. Também da sua, António. Da fragilidade da vida, da doença, da perda dos que amava, da desilusão, das intrigas, das invejas, das derrotas, da decadência, da morte, da impossibilidade de regresso a casa, de regresso a Nelas, nas noites quentes do Verão da infância. Há neles a saudades de uma Lisboa antiga, a cheirar a maresia. Do pai, da mãe. Dos irmãos. Dois que partiram para um lugar de onde nunca se regressa.

Com que fascínio li as suas cartas da guerra, D’este viver aqui neste papel descripto. Cartas que escreveu longe de tudo e de todos. Aquelas em que, no meio do mato, via morrer os seus homens. Aquelas em que soube que tinha sido pai de uma menina, que só era da mãe porque o António estava longe! Aquelas em que perpetuou a sua paixão de homem jovem e a sua incompreensão face a uma guerra colonial que o afastava da família. Que o impedira de estar no dia em que a sua filha nasceu.

Ao ler o seu último romance, senti-me, de novo, lá dentro.

Revejo-me na miúda que vivia na cave com a mãe e que o pai visitava de quando em vez, como lhe dava jeito.  Sou aquela garota que ficava no quartito ao lado a ouvir os gemidos na cama deles. A que aparecia no quarto quando menos esperavam e os via quase nus, nos corpos e nas almas.  Aquela pequena que ele pegava ao colo e elevava ao alto, perto do céu. Que passeava no jardinzito de um bairro da Lisboa pobre, onde um velho cego ficava a olhar para o infinito, ao sol de inverno.

 Agora, já é tarde para tudo. Tarde para eu esquecer o quanto odiei o meu pai nos dias em que não ouvia os seus dedos a tamborilar na porta da entrada. Tarde para o amar como o amei nas noites em que ele vinha e me desenhava um anel azul num dedo da mão esquerda ou um relógio redondo com ponteiros no pulso direito. Ou ao contrário, nem sei.  É tão tarde!

Agora que já não moro naquela cave, que tenho um carro topo de gama, que herdei o seu gabinete nesta empresa da família é tão tarde que já não sei o que sinto por ele, ao vê-lo no hospital à beira do fim. Sei que ainda voltou, algumas vezes, depois da morte da minha mãe, com o motorista, àquele bairro à procura de um tempo irremediavelmente perdido.

Sabe, António, também eu sou aquela mulher que se deita com o advogado uma vez por semana num quarto de hotel à beira-mar. Longe da cidade. Sou aquela a quem o sr. doutor já nada tem para dizer no regresso a Lisboa. Sou aquela que ele deixa numa rua antes daquela onde moro. Sou aquela a quem ele vai roubando o dinheiro do velho patrão doente.  Aquela que suporta o cheiro da sua solidão vadia. O mau cheiro da sua vergonha dos pais que deixou numa aldeia que nunca mais visitou. Vergonha da mãe a bater numa lata para chamar as galinhas. Sou a que sabe das dificuldades e do desalento quando ele não é capaz de ser viril como era dantes.

Sabe, que mais, António, também eu oiço os ruídos da solidão nos corredores da velha casa onde moro. Onde outros moraram antes de mim. Os seus retratos acumulam-se sobre as cómodas. Os seus cheiros espalham-se pelos quartos e pelas salas vazias. Os seus gestos são audíveis quando tudo dorme. Também eu vejo as estatuetas que se alongam sobre os móveis quando a luz as rodeia de sombra. Sou a que fica sozinha, sentada nesta cadeira a mirar o Tejo e não vê nele as Naus de outrora.

António, a sua escrita é do tamanho do mundo. Cabem nela todas as vidas. De que tamanho é o seu coração, António?

Foi bom voltar a lê-lo, de uma só vez. Como eu gosto!

Ana Albuquerque

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