ARTIGO DE OPINIÃO – A raridade das coisas geniais: estudo, experiência e engenho

15/11/2023 18:30

Ao ler a Ode 1.22 de Horácio, na tradução de Frederico Lourenço, é impossível não pensar de imediato na estância 129 de Os Lusíadas, em que Inês de Castro tenta convencer D. Afonso IV a poupar-lhe a vida; se outras semelhanças não houvesse, bastaria o verso inicial desta estrofe, «Põe-me onde se use toda a feridade», para ouvir nele o eco de «Põe-me nos campos estéreis, onde nenhuma árvore/ é refrescada pela brisa estival» e «põe-me debaixo do carro demasiado próximo/do Sol em terra negada a casas».  

Se Camões encontra evidente inspiração nas leituras que faz – entre as quais se contam, por exemplo, Ovídio, Cícero, Virgílio e Horácio – não é menos verdade que o Poeta vem influenciar – tem vindo sempre a influenciar – as obras daqueles que se lhe seguiram, não só pelo seu valor literário como também pelo seu papel cultural, no sentido da sua identificação com Portugal, entendido Camões como representação ou sinédoque da identidade nacional. 

Dessa influência dão conta os posteriores e sucessivos diálogos que vários autores – como Bocage, Pessoa, Sophia, Manuel Alegre, Saramago – estabeleceram com os textos camonianos, num criativo exercício intertextual que é inequívoca prova da fortuna do Poeta. O reconhecimento de reminiscências de Camões em textos ulteriores permite, para além do prazer literário e estético, devolver ao Poeta o reconhecimento do seu génio, aquele que os seus contemporâneos, entre os quais António Ferreira, quiseram apoucar. 

A esse respeito, as palavras de Telmo, em Frei Luís de Sousa, não deixam dúvida: «O livro [Os Lusíadas] sim: aceitaram-no como o tributo de um escravo.» Na verdade, apesar de estar certo do seu valor, não bastou a Camões essa confiança para convencer a Sorte, que o Poeta sabia invejosa de «engenhos peregrinos».  

No entanto, «Não importa nada: que o castigo/será terrível.», como lemos no poema Camões dirige-se aos seus contemporâneos, de Jorge de Sena. Sim, a verdade é que o Poeta se vingou, marcando de forma indelével a literatura posterior, considerado modelo e referência,  de tal modo esteio fundacional da identidade literária, linguística e cultural nacional que se diria do Canto que ofertou à Pátria fixar a divisão entre dois períodos distintos, a.C. e d.C. – antes de Camões e depois de Camões. 

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