ARTIGO DE OPINIÃO: A Casa de José Saramago em Lanzarote

02/08/2023 19:30

Chegámos à Ilha no dia 12 de julho e sabíamos que a nossa primeira visita seria à casa onde José Saramago viveu e escreveu muitos dos seus livros. Esse era o principal motivo desta viagem.

Pela manhã, alugámos um carro no nosso hotel na Costa de Teguise. Consultámos o mapa e, com auxílio do GPS, rumámos a Tias.

Pelo caminho, fomos observando a maravilhosa paisagem: as montanhas, esculpidas pelo vento constante, a terra negra, deixada pela lava dos vulcões, as palmeiras resistentes, que ladeavam a estrada, as casas brancas, todas da mesma altura, dispostas de forma harmoniosa no sopé dos montes, numa conjugação perfeita entre a mão de Deus e a mão do Homem. 

A estrada levou-nos ao local mítico. Uma rotunda dedicada a José Saramago anunciava a breve chegada ao nosso destino: A Casa, assim se chama a casa mandada edificar por Saramago. No pátio da entrada, esperava por nós a oliveira trazida pelo escritor da sua terra natal, Azinhaga, no Ribatejo. Numa das paredes, um poster enorme com o escritor de mãos abertas para nos dar as boas-vindas. A Maité acolheu-nos com um sorriso largo, bonito. Estava à nossa espera para iniciarmos a visita agendada.

Penetrámos no hall, uma pequena galeria, em silêncio, como quem entra num lugar sagrado. O chão, no centro, desenhava um tapete feito de pedra vulcânica. As paredes brancas estão repletas de quadros de pintores essencialmente portugueses e lanzarotenhos. Sobre os móveis sóbrios, uma diversidade de objetos reunidos pelo escritor nas suas viagens, além de livros antigos, algumas preciosidades. 

Passámos ao escritório e vimos a mesa de pinho, onde, durante 18 anos, escreveu tantos livros, aí começando pelo Ensaio sobre a Cegueira (1993). Sobre outro móvel, os retratos das pessoas que mais amava; uma cópia do diploma que atesta que José Saramago recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1998 e fotos de escritores universais que admirava. Nas paredes brancas, muitas pinturas e desenhos oferecidos, e, em lugares de destaque, retratos de Almeida Garrett, Camões e Pessoa. Cada peça, com um valor sentimental incalculável, define a personalidade do nosso escritor: as canetas, os tinteiros, os cavalos, os elefantes, as cerâmicas…

Uma janela dá para o exterior iluminado, aberta a uma paisagem que se estende desde o jardim até ao mar, ao longe. As paredes da sala estão largamente revestidas de quadros que têm a ver com as suas obras, particularmente com personagens das mesmas. Sobre as estantes, mais livros e recordações. Uma estante portátil junto ao cadeirão de leitura. No centro do quarto, onde morreu tranquilamente, uma cama coberta com colcha rendada. Pinturas nas paredes. Fotografias sobre a mesa-de-cabeceira.

 A cozinha ocupa o coração da casa, continua cheia de vida, a mesa com livros abertos na cabeceira onde se sentava Saramago. Os armários de loiça, o fogão, a máquina de café, o frigorífico, com fotografias coladas na porta. Respira-se ali a vida diária de uma família. O local privilegiado de encontros com amigos, de refeições regadas com o vinho malvasia branco e fresco da Ilha ou com o Porto levado de Portugal.

O jardim é simples, bem cuidado, com uma vista única para o espaço que conduz ao sonho, à evasão. Ao longe o mar. Outras ilhas (as conhecidas e as desconhecidas). Ao centro, a cadeira onde se sentava ao fim do dia a olhar para o infinito, até onde os olhos da sua imaginação continuavam a ver. Não resisti e sentei-me também naquele lugar. A piscina, os catos, a pedra negra, sob a qual pensou descansar eternamente, combinam serenamente.

A Biblioteca, acrescentada à estrutura inicial da casa, alberga milhares de livros, devidamente organizados pelos países de origem dos autores. Entre eles, uma estante dedicada a livros escritos por mulheres, organizados alfabeticamente, por vontade da mulher. Ficámos curiosas. Que escritoras foram lidas por Saramago? Fotografámos algumas das lombadas dos seus livros: aí encontramos algumas das nossas diletas, Lídia Jorge, Rosa Montero e tantas outras.

No centro do teto, uma claraboia por onde entra a luz. Muita luz. Na parede da frente, uma mesa larga, o computador mais moderno onde escrevia ultimamente, ouvindo música, sobretudo Bach, sentado no seu cadeirão negro, uma mantinha vermelha continua num dos braços. Cravos vermelhos, frescos, são uma presença em vários lugares. Um grande retrato de José Saramago e Pilar ocupam um espaço central. Outros quadros, muitas gravuras. Sofás negros no meio da sala, convidam à leitura, ao encontro, à reflexão, ao bem-estar, entre as gentes que povoam as estantes e que estão ali à nossa espera. Apetece ficar ali. Muito tempo.

Na antecâmara da biblioteca, a diretora de A Casa, Maria Del Río, acolheu-nos com simpatia e reconhecimento. Na saída, pousámos para as fotografias e já éramos da família. Respira-se a comunhão neste lugar.

Voltámos no dia 17. A Júlia abriu-nos a porta de A Casa. Trocámos rapidamente a roupa de turistas, para participarmos no clube de leitura que se organiza às segundas-feiras. A Casa continua a ser um lugar de encontro de leitores e de defesa da liberdade, tendo sempre como pano de fundo os Direitos Humanos. Nesse dia, os muitos participantes foram convidados a ler Orlando, de Virgínia Woolf (1928), um romance complexo, introdutor do pós-modernismo, cujo protagonista deambula três séculos, primeiro como homem, depois como mulher. Um livro diferente que, de forma irónica e fantasiosa, atravessa as barreiras do tempo e as circunstâncias de género.  

Trouxemos livros. Trouxemos um pouco da magia daquele lugar no livro de Pilar: A Intuição da Ilha, os dias de José Saramago em Lanzarote, 2022. 

O título sugere, desde logo, o fascínio, o segredo, pressentido por Saramago, que o levou a escolher aquele lugar tranquilo onde pôde usufruir do silêncio para a escrita e o regresso, ainda que feito através da memória, à paisagem clara e limpa da planura da sua terra natal. Este espaço propiciou a convivência com muitos artistas e amigos que o visitavam, no intervalo das suas viagens pelo mundo, quer para apresentar os seus livros e participar em feiras e encontros de escritores, quer para participar em manifestações a favor da igualdade social e contra a repressão nas diferentes partes do mundo, onde a sua consciência cívica o chamava. Os direitos humanos são os princípios que regem a Fundação com o seu nome e que continuam a ser escrupulosamente seguidos no plano de ação das duas casas, em Lisboa e em Lanzarote.

A autora reconta vários episódios da vida de José Saramago, os momentos vividos em família com os cunhados que dividem o espaço, as visitas de outros escritores, as visitas de políticos e artistas portugueses, a vivência e as rotinas de Saramago ao escrever naquele espaço povoado de memórias e de livros. A autora, a mulher do escritor, quer continuar a falar-nos dele, prolongando a sua admiração pelo homem com quem partilhou muitos anos da sua vida. Pilar apaga a sua presença de forma deliberada. São os dias de Saramago. Quer mostrar-nos o lado mais bem-disposto do escritor, o lado do ser humano no seu espaço mais íntimo, do homem que apreciava o convívio à volta da mesa, com um bom bacalhau bem regado com azeite português. Sentimo-lo mais próximo, quase como um parente, nós que sempre o admirámos como o grande escritor que é, mas que o sentíamos um pouco distante, quando nos assinava os seus livros, depois de o esperarmos numa longa fila.

Através deste livro, revisitámos algumas das obras do escritor e dos espaços emblemáticos da Ilha, seguindo, de perto, um roteiro idealizado pelo grande artista César Manrique, que conseguiu, de forma prodigiosa, mostrar-nos as maravilhas da sua terra, escolhendo os espaços naturais únicos, para fazer de Lanzarote um paraíso aos nossos olhos. 

Subimos a La Geria e ao Parque Natural de Timanfaya e encontrámos um outro planeta que convida à escuta do vento e ao apaziguamento interior. Uma viagem sentimental irrepetível. Uma viagem lunar. Transcendente. Pela mão de José Saramago. 

O que a literatura une ninguém separa. 

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